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sábado, 14 de julho de 2012
A DOR DA PERDA
A DOR DA PERDA
Texto Dra. Maria Helena Pereira
Franco Bromberg
PHD em Luto
Campinas, 16/03/2001
(Adaptado em 2001, pela Psicóloga
Ana Paula Reis da Costa)
“A dor é suportável quando conseguimos acreditar que ela terá um fim e não quando fingimos que ela não existe.” (Allá
Bozarth – Campbell)
“As vezes, quando sentimos a falta de alguém, parece que o mundo inteiro está vazio de gente.” (Lamartine)
Algumas mentiras sobre a perda e o luto:
1. Luto e pesar são a mesma experiência;
2. A vivência da perda e do luto progride nas fases previstas e sequenciadas sem regredir ou supor fases.
3. Devemos sair do luto, em lugar de encará-lo.
4. A partir da perda de uma pessoa amada, devemos ter como objetivo superar o luto, o mais cedo possível.
5. A dor expressa em lágrimas é um sinal de fraqueza.
Luto e pesar são a mesma experiência?
Não, há diferenças fundamentais.
Pesar = é um complexo de sentimentos e pensamentos sobre a perda, que são experimentados e vividos
internamente. Em outras palavras, é o significado interno dado à experiência do luto.
Luto = é o pesar tornado público, quando nós nos apoderamos desses sentimentos e pensamentos e os
expressamos, compartilhando com os que nos cercam. E esta é a forma saudável do luto.
Há uma seqüência previsível de fases na vivência do pesar e do luto?
Há uma relação de fases, porém não necessariamente sequências. O Processo é dinâmico, inclui progressões e
regressões até que se dê a elaboração, dependendo das singularidades de cada pessoa, da circunstância da
morte, dos vínculos, do meio social e da espiritualidade.
Portanto não é possível falar com precisão sobre uma sequência, porém podemos compreender o fenômeno e,
porque não dizer tentar controlá-lo.
A noção da existência das fases pode auxiliar as pessoas a encontrar sentido para a experiência do luto, mas não
é possível substituir o medo, a angústia, a sensação, da falta de sentido, naturais em uma experiência de luto,
entre outros sintomas.
O conceito de fases foi popularizado em 1969, por Elisabeth Kübler-Ross, citando:
O Primeiro Estágio: Negação e isolamento
O Segundo Estágio: A raiva
O Terceiro Estágio: A barganha
O Quarto Estágio: A depressão
O Quinto Estágio: A aceitação
Therese Rando em 1984 redimensiona o que considera ser esperado vivenciar a partir da perda de alguém que
amamos levantando as seguintes fases:
1. Fase da Evitação: Engloba como tarefa reconhecer e compreender que a morte aconteceu.
2. Fases de Confrontação: Englobando as reações à separação, a dor e outras formas de expressão e
identificação da perda (recordações e saudades).
3. Fase da Acomodação: Engloba o reajuste a um mundo onde falta alguém, a revisão do mundo antigo, o
desenvolver de uma nova identidade, novos modos mais fortalecidos de estar no mundo e finalmente
reinvestir.
A pessoa enlutada com frequência encontra outras, na mesma situação, que adotaram um sistema de
crenças rígido sobre o que deve acontecer nessa jornada ao longo do luto. Essas crenças podem afetar
profundamente o processo individual natural. Podemos encontrar respostas de desorganização, culpa,
medo, insônia, intolerância, falta de apetite, desatenção, etc., mas podemos não encontrá-las.
As regressões (choro, depressão, e dúvidas) sempre ocorrerão, podendo se sobrepor ou não as fases.
Porém, toda vez que saímos de uma regressão avançamos no processo de elaboração em direção a vida.
Devemos lembrar que o luto não é um acontecimento qualquer, ele representa um violento estressor que
interrompe o desenvolvimento de todo um ciclo vital de relações, afetando nossa identidade bio-psico-
social.
Emoções podem seguir-se umas às outras com intervalos curtos ou até mesmo duas ou mais emoções
podem estar presentes ao mesmo tempo. Cada pessoa fica enlutada a sua maneira, não existindo maneiras
melhores ou piores, nem a imposição de uma sequência rígida, cada luto é único, para cada pessoa.
Devemos evitar o luto, em lugar de enfrentá-lo?
Talvez como resultado dos valores prevalecentes na sociedade oriental moderna, as pessoas enlutadas são
encorajadas pela sua comunidade a prematuramente deixar para trás a experiência de luto sem olhar para
todas as suas implicações. Como resultados temos duas situações; ou o enlutado vive seu processo
isoladamente, ou é forçado a abandoná-lo antes de tê-lo completado, o que acarreta por constituir sintomas e
ocorrência de ordem pessoal, familiar e profissional ainda mais sérias.
Amigos e familiares bem intencionados, mas desinformados, tentam fazer com que o enlutado desenvolva um
autocontrole, entendendo que esta seja a resposta mais adequada, tornando muito difícil para o enlutado
realizar ou mesmo enfrentar essa mensagem poderosa (ex.: Força! Coragem!) que exige a repressão emocional.
Normalmente nos questionamos quanto tempo dura um luto, e esta questão revela o quanto nossa cultura é
impaciente com o pesar, há um desejo de sair rapidamente de uma experiência que pode estar representando a
mudança de uma vida inteira (a do enlutado). Um exemplo disto é a pressão que o enlutado sofre, logo após a
perda, para voltar às suas atividades “normais”. Aqueles que permanecem expressando a tristeza por mais
tempo são considerados fracos ou problemáticos. O que é uma grande mentira, a mensagem sutil é “seja forte,
não chore, não resmungue, não incomode, não se deixe abater”. Ou seja, o luto passa a ser visto como alguma
coisa a ser evitada (como se pudesse ser evitada), quando na realidade só necessita ser vivido. Então o enlutado
passa a apresentar um comportamento aceitável socialmente, que, porém, contraria sua necessidade
psicológica. Mascarar ou fugir do luto incrementa a ansiedade, a confusão, a sensação de abandono e a
depressão.
Se a pessoa enlutada receber pouco ou nenhum reconhecimento social para a sua dor, poderá temer que seus
pensamentos e sentimentos sejam anormais, o que não é real.
A partir da perda de alguém que amamos, devemos ter como objetivo superar o luto, o mais cedo possível?
O enlutado pode ouvir: “Já está na hora de você sair dessa”. Em termos científicos/clínicos, a dimensão final do
pesar é com freqüência entendida como resolução, recuperação, restabelecimento, reorganização e porque não
pensar em reconciliação? Ou seja, não significa passar pelo luto, mas crescer por meio dele. Representa integrar
a nossa realidade de se mover ao longo da vida sem a presença física porque o vínculo permanecerá mesmo
que redimensionado.
A reconciliação promoverá a retomada do controle e da confiança sobre a vida, um senso de energia renovado
uma habilidade para reconhecer a morte como parte da vida. Ou seja, o enlutado perceberá que, embora difícil,
a dor e o pesar são experiências necessárias do viver. À medida que a reconciliação ocorrer e o processo de
elaboração evoluir, o enlutado perceberá uma vida diferente, redescoberta em satisfações e conquistas. Mas,
tudo leva tempo; não é um evento, é um processo, inclusive porque exigirá compreensão intelectual e
espiritual. Ou seja: não basta entender na mente, tem que entender no coração e na fé (crer).
Com o tempo a dor sentida deixa de ser aguda e onipotente para se transformar em um sentimento de perda,
que pode ser reconhecido e dá vez a um significado e propósito construídos e renovados. O sentimento de
perda não desaparece completamente; ele é atenuado, e as crises de pesar, antes intensas, tornam-se menos
frequentes e mais suaves. Começa a sobrar um espaço dentro do enlutado para voltar a olhar para a vida;
surgem novos investimentos, emergindo a esperança de continuar a viver natural e tranquilamente. Então a
vida torna-se possível de seguir em desenvolvimento, crescimento e amadurecimento contínuo.
A dor expressa em lágrimas é sinal de fraqueza?
Muitas vezes, as lágrimas devidas a uma perda são associadas a fraqueza e inadequação pessoal. isto é um
imenso engano. O pior que o enlutado pode fazer é permitir que esse falso julgamento o impeça de expressar a
sua dor e vivê-la. Enquanto suas lágrimas podem ocasionar um sentimento de impotência nos amigos, família e
cuidadores, é preciso que ele esteja atento para não se deixar inibir por eles. É possível que a pessoa que está
preocupada com o enlutado tente, mesmo sutilmente para protegê-lo, evitar que ele chore, para protegê-lo a si
mesma da dor da perda. Ouvem-se frases como: “ – As lágrimas não o trarão de volta.” Ou: “ – Enquanto você
chora ele (o falecido) não descansa.” , etc.
Todavia, chorar é uma maneira natural de aliviar a tensão interna e permite que seja comunicada a necessidade
de ser confortado. Além do que a supressão das lágrimas é fator de risco para a estruturação de distúrbios de
conduta tais como o estresse crônico.
Cada perda é única: o que existe de mais especial nos seres humanos é que não existem dois iguais. Isso se
reflete nos vínculos que estabelecemos com os outros, bem como nas condições da dor pela perda daquele que
amamos.
Não há maior ou menor dor, há diferenças. Ser diferente não significa ser melhor ou pior, significa apenas que
não são iguais. Um fato nem sempre invalida outro, tal qual nenhuma morte invalida a vida. Não se compete
com a dor, vida e morte não são opostas. Pelo contrário, a morte está inclusa na dimensão universal que a vida
é.
Como diria Caetano Veloso:
“Cada um sabe a dor e a
delícia de ser o que é.”
Dicas para Ritual Fúnebre:
. Viver um dia de cada vez, realizar somente o que se pode, contar com o auxílio de outros.
. Ter paciência consigo mesmo, pois não é momento para auto-exigências.
. Permita-se expressar o que sente, compartilhando com outros. Fale, chore, participe. Isto não vai lhe destruir.
. Promova um circuito de apoio para si e para os outros.
. Informe, sem exageros, as crianças envolvidas. Não as isole; permita que expressem e compartilhem com todos.
. Mantenha presente uma crença espiritual que lhe auxilie compreender o fenômeno e enfrentá-lo com esperança.
. Sentimentos de culpa, revolta e tristeza são normais em todas as perdas. Eles existem para que possamos elaborar
o luto, e aparecem sob forma de pensamentos invasivos e com o tempo tendem a desaparecer. As culpas nem
sempre são reais: existem para colocar a pessoa em contato com o falecido e a despedida, auxiliando na
confrontação e reconhecimento da perda, para a posterior reorganização da vida. A revolta que advém da morte é
a raiva da existência do fenômeno morte, e a tristeza representa nossa inaceitável despedida, normal para os
primeiros dois anos após a morte.
Quando e Por que Psicoterapia
do Luto?
Uma perda significativa provoca muitas reações que são normais, mas que podem acarretar dificuldades na
vida diária e, em situações graves, conseqüências em áreas cruciais da existência, levando a problemas de saúde,
conjugais, profissionais e outros. Embora seja uma experiência normal diante de uma morte, o luto coloca as pessoas
em uma situação de vulnerabilidade. Por vezes nos sentimos em risco quando nossos recursos pessoais não são
suficientes comparados com o tamanho e o impacto do luto em nossas vidas.
A Psicoterapia se faz necessária quando a demanda exigida pelo luto (desencadeada pela morte de alguém
importante) vai além do que nós, como seres humanos, podemos disponibilizar, causando intenso sofrimento que traz,
como conseqüência, limitações para a vida e o desenvolvimento. Nem sempre podemos tudo sozinhos. O auxílio de um
profissional (técnico) permitirá:
. Trabalhar, fortalecendo e construindo em conjunto, novos recursos para o enfrentamento da dor e outros
sintomas.
. Elaborar sequelas emocionais, oferecer continência e estimular a evolução das fases do luto até o seu final.
. Identificar e incluir a situação da perda na vida sem conseqüências agravantes.
. Prevenir a instauração de dificuldades futuras, através da identificação de condições de risco.
. Atender às necessidades de escuta do enlutado, possibilitando a este reorganizar-se e readaptar-se ao contexto
social.
Toda Psicoterapia do Luto é focada e tende a ser breve. Os atendimentos podem variar de 2 meses até um ano de
duração.
Luto:
• Processo de elaboração das perdas .. importante para a saúde mental, (importante para a estruturação da
personalidade);
• Proporciona:
- Reconstrução de recursos;
- Adaptação às mudanças.
• Enriquecedor .. confiança de superar demais perdas;
• Permite encontrar um lugar em nossas vidas para pessoas que amamos e perdemos;
• Necessidade de dar sentido ao que aconteceu .. tentativa de retomar o controle sobre o mundo.
Manifestações de Luto Normal:
Sentimentos:
. Choque;
. Tristeza;
. Culpa;
. Raiva e hostilidade;
. Solidão;
. Agitação;
. Ansiedade;
. Fadiga/anseio: desejo de estar com a pessoa falecida;
. Desamparo;
. Alívio.
Sensações físicas:
. Vazio no estômago;
. Aperto no peito;
. Nó na garganta;
. Hipersensibilidade ao barulho;
. Sensação de despersonalização: “Eu caminho na rua e nada me parece real, inclusive eu”;
. Falta de ar, sentir a respiração curta;
. Fraqueza muscular;
. Falta de energia;
. Boca seca;
. Queixas somáticas;
. Suscetibilidade a doenças, principalmente as doenças ligadas à baixa imunidade, estresse ou falta de cuidados com
a saúde;
. Cognições;
. Confusão, déficit de memória e concentração;
. Pensamentos obsessivos;
. Sensação de presença;
. Alucinações.
Comportamentos:
. Distúrbio de sono;
. Perda/aumento de apetite;
. Aumento no consumo de psicotrópicos, álcool e fumo;
. Comportamento “aéreo”;
. Isolamento social;
. Evitar coisas que lembrem a pessoa que faleceu;
. Procurar e chamar pela pessoa;
. Sonhos com o falecido;
. Hiperatividade e inquietação.
Quando o Luto Termina?
. Não é possível precisar em termos de tempo;
. Na perda de familiar próximo, dificilmente a elaboração se dá em menos de um ano;
. Sinais de término;
. Pessoa é capaz de lembrar da pessoa que morreu sem dor (podendo sentir tristeza) e manifestações físicas (choro
intenso, tensão no peito);
. Pessoa readquire interesse pela vida, sentem-se mais esperançosas e se adaptam a novos papéis;
. Luto é um processo a longo prazo que não culmina no estado anterior ao luto;
. Não acontece de forma linear, podendo reaparecer para que seja novamente trabalhado;
. O processo de luto pode dar-se de modo normal ou complicado.
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