Esquizofrenia, psicopatologia e crime violento:
uma revisão das evidências empíricas
Schizophrenia, psychopathology and violent crime:
a review of the empirical evidences
Eduardo Henrique Teixeira1, Marcelo Carlos Pereira1, Renata Rigacci1, Paulo Dalgalarrondo1
REVISÃO DE LITERATURA
1 Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.
Endereço para correspondência: Eduardo Henrique Teixeira
Rua Frei Antonio de Pádua, 808 – 13073-330 – Campinas, SP
Fone: (19) 3243-1374. E-mail: eht@uol.com.br
Palavras-chaves
Esquizofrenia, psicose,
psicopatologia, crime
violento.
Resumo
Objetivo: Estudar, mediante uma revisão sistemática da literatura científica, a relação esquizofrenia,
psicose e violência. Métodos: Realizou-se uma busca eletrônica por meio das
bases de dados Medline, SciELO e Lilacs, até a data de junho de 2006, considerando artigos
de línguas inglesa e portuguesa. Resultados: Um número de pesquisas revela associação
entre esquizofrenia e comportamento violento, principalmente quando existe comorbidade
com abuso de substâncias. Aspectos específicos dos delírios são relacionados com
comportamento violento, como maior grau de convicção e presença de delírios de controle
e perseguição. Conclusões: Apesar de limitações metodológicas, alguns aspectos
da psicopatologia aguda da psicose e da comorbidade de abuso de substâncias parecem
estar fortemente relacionados à presença de comportamento violento entre pacientes psicóticos.
De acordo com os estudos analisados, somente uma pequena parcela da violência
social poder ser atribuída a esse grupo de pacientes. Novas pesquisas deverão futuramente
permitir prever antecipadamente o risco de um comportamento violento, permitindo com
isso intervenções preventivas e redução do processo de estigmatização.
Abstract
Objective: To study, through a comprehensive review of the scientific literature, the relationship
between schizophrenia, psychosis and violence. Methods: An electronic search was conducted
in Medline, SciELO e Lilacs databases, up until June 2006, including all papers written in English
or Portuguese. Results: There are several international research papers which found a connection
between schizophrenia and violent behavior, especially when there is a history of substance
abuse. Specific aspects of delusion are related to violent behavior, such as a greater degree of conviction
or delusions about being in control or persecuted. Conclusions: Despite methodological
limitations, it can be said that some aspects of acute psychosis and accompanying substance
abuse seem to be strongly related to the presence of violent behavior among psychotic patients.
According the studies retrieved, only a small percentage of social violence can be attributed to
this particular group of patients. New data shall allow that in the future the risk of violent behavior
will be predictable, making it possible for the use of preventive interventions and avoiding
stigmatization.
Key-words
Schizophrenia, psychosis,
psychopathology, violent
crime.
Recebido
27/02/2007
Aprovado
28/06/2007
J Bras Psiquiatr, 56(2): 127-133, 2007
128 Teixeira EH et al. REVISÃO DE LITERATURA
INTRO DUÇÃO
A relação entre transtorno mental grave e violência é bastante
complexa e, apesar dos contantes avanços da psiquiatria
moderna, ainda continua gerando muita discussão
e dúvidas. A dimensão do debate, envolvendo questões
culturais, sociais, éticas e políticas, torna esse campo da psiquiatria
forense ainda mais complexo (Binder, 1999; Mullen,
2000; Arboleda-Florez, 2005).
Até próximo das décadas de 1980 e 1990, o consenso
era que pessoas com esquizofrenia não eram provavelmente
mais violentas comparadas com a população geral
(Walsh et al., 2001). Novos estudos epidemiológicos surgiram
e atualmente
se aceita que pessoas com esquizofrenia,
embora por força de um pequeno subgrupo, têm maior
probabilidade de serem violentas que a população geral.
Mesmo assim, a proporção do total de violência social atribuída
a este grupo é bastante pequena, geralmente abaixo
de 10% (Walsh et al., 2001).
Um ato grave de violência cometido por uma pessoa
com transtorno mental grave é um evento relativamente
raro (Monahan, 1992). Entretanto, quando ocorrem episódios
de grande repercussão na mídia, o tema volta a ser
foco de atenção e debate (Gattaz, 1998; Josef e Silva, 2003).
Essa relação é intensamente reforçada por aspectos culturais
e históricos, que desde o século XIX associam “loucura”
a crime. Violência e transtorno mental associam-se na mente
do público e os profissionais de saúde mental costumam
sentir-se compelidos a dizer que esses medos são infundados.
Infelizmente, os profissionais não têm evidências claras
para justificar suas afirmações e formular suas explicações,
pois a maioria dos estudos ainda tem valor limitado (Stuart
e Arboleda-Florez, 2001; Long, 2000).
A literatura sobre transtorno mental grave e violência
está sujeita tanto a dificuldades metodológicas, associadas
com avaliações diagnósticas não confiáveis, indiretas,
retrospectivas, com a ocorrência de comorbidades (especialmente
uso/abuso de substâncias psicoativas), com variações
culturais importantes na percepção e construção
do que é de fato um ato criminoso, como à falta de precisão
na definição abrangente e precisa da própria violência
(Marzuk, 1996; Arboleda-Florez, 1998).
Soma-se a isso a dificuldade em abordar o tema violência
com receio de reforçar a estigmatização do doente
mental, sendo tal fato contrário à exigência ética da profissão
(de defesa permanente de nossos pacientes) e ao processo
histórico da reforma psiquiátrica (Torrey, 1994).
Para indivíduos com transtornos psicóticos, considera-se
que a condição psicopatológica por si só é um fator potencial
na precipitação de comportamentos disruptivos e atos
violentos de forma geral. Há um reconhecimento crescente
de sintomas que tornam a pessoa mais predisposta a possíveis
atos violentos (Gunn e Taylor, 1993; Teixeira et al., 2005).
O presente estudo, por meio de uma revisão sistemática
da literatura científica, tem o objetivo de fazer uma análise
crítica das pesquisas realizadas abordando a relação entre
psicose (sobretudo a esquizofrenia) e violência, tanto quanto
seus resultados, e as possíveis conclusões e limitações
metodológicas.
MÉTO DOS
Realizou-se pesquisa eletrônica por meio das bases de dados
Medline, Scielo e Lilacs, até a data de junho de 2006,
considerando artigos de línguas inglesa e portuguesa, desde
o último artigo disponível. Pesquisaram-se artigos que
trataram de aspectos sociodemográficos em amostras clínicas
de pacientes adultos com diagnóstico de esquizofrenia
provenientes de diferentes países.
Utilizaram-se associações das seguintes expressões:
psychiatry, forensic psychiatry, psychopathology, mental disease,
severe mental illness, delusion, psychosis, schizophrenia, violence,
assalt, crime e violent behavior.
A partir dos resultados, num total de 79 artigos obtidos,
selecionaram-se 54 de maior relevância e de interesse para
o tema específico em questão, os quais foram divididos em
três seções: transtornos mentais entre presidiários, violência
entre pacientes com transtornos mentais e associação de
transtornos mentais com violência na comunidade.
RESU LTADOS
Transtornos mentais entre presidiários
Estudos epidemiológicos com populações específicas têm
reforçado a associação entre comportamento violento e
transtorno psiquiátrico. No caso de população de presidiários,
existem muitas evidências indicando considerável prevalência
de transtorno mental quando comparada com a
da população geral (Teplin et al., 1996; Cardoso et al., 2004;
Assadi et al., 2006).
Pesquisas realizadas na Inglaterra com presos por crimes
violentos verificaram maior prevalência de pessoas com esquizofrenia
quando comparada com a da população normal
(Taylor e Gunn, 1984; 1999). Em um estudo retrospectivo
com condenados por homicídio na Austrália, de 1993 a 1995,
constatou-se taxa elevada de condenados com antecedente
de tratamento para esquizofrenia previamente ao crime.
Essa taxa aumentava quando considerada a comorbidade
com uso/abuso de substâncias (Wallace et al., 1998). Esses
dados são reforçados por estudo semelhante (Shaw et al.,
2006), que avaliou condenados por homicídio na Inglaterra
durante 1996 a 1999, num total de 1.594 sujeitos. Verificou-se
J Bras Psiquiatr, 56(2): 127-133, 2007
REVISÃO DE LITERATURA Esquizofrenia, psicopatologia e crime violento: uma revisão 129
5% (n = 85) de homicidas com diagnóstico de esquizofrenia
anterior ao crime e concluiu-se haver uma possível associação
entre esquizofrenia e condenação por homicídio (Shaw
et al., 2006). Outros estudos utilizando metodologia semelhante,
ou seja, estimativa de prevalência de esquizofrenia
entre condenados por homicídio, constataram resultados
semelhantes (Teplin, 1990; Eronen et al., 1996).
Ainda na Inglaterra, Brugha et al. (2005) compararam
duas amostras de pacientes com psicose selecionadas de
prisões e da comunidade geral, utilizando o questionário
semi-estruturado SCAN (Schedules for Clinical Assessment
in Neuropsychiatry). A prevalência de psicose no ano anterior
foi dez vezes maior entre os prisioneiros quando
comparados à comunidade geral. Um entre quatro prisioneiros
teve os sintomas psicóticos atribuídos à intoxicação
ou à abstinência de substâncias psicoativas. A sintomatologia
delirante e alucinatória não foi diferente entre as duas
amostras (Brugha et al., 2005).
Confrontando pesquisas anteriores que relatavam aumento
de comportamento violento entre pacientes com
transtornos mentais graves e relacionavam-no com a desinstitucionalização,
Stuart e Arboleda-Florez (2001) reanalisaram
dados de uma pesquisa realizada no Canadá em 1992,
a qual estudou a prevalência de transtorno mental entre
presidiários, e concluíram que apenas uma pequena parcela
de comportamento criminal violento poderia ser atribuída a
pacientes psiquiátricos. Alertam para uma percepção pública
exagerada que pode reforçar aspectos do estigma (Stuart e
Arboleda-Florez, 2001).
Violência entre pacientes com
transtornos mentais
Estudo realizado em Victoria (Austrália) avaliou dois grupos
de pacientes com esquizofrenia, sendo o primeiro antes do
processo de desinstitucionalização (1975) e o segundo quando
os serviços comunitários se estabeleceram (1985). Compararam-
se os dois grupos com a população geral e ambos
revelaram significativamente mais taxas de condenação por
toda categoria de ofensa criminal, exceto ofensa sexual. Nos
casos nos quais ocorreram comorbidade com abuso de substâncias,
os resultados apontaram para um nível desproporcional
de agressões. Em relação à mudança no modelo assistencial
para serviço comunitário, os resultados não marcaram
nenhuma mudança significativa dos índices de condenação
associados à esquizofrenia (Mullen et al., 2000).
Vevera et al. (2005) estudaram, retrospectivamente, quatro
amostras de pacientes com diagnóstico de esquizofrenia
em Praga (República Tcheca). Examinaram-se os registros
de 404 pacientes em amostras dos anos de 1949, 1969, 1989
e 2000 e selecionaram-se para violência utilizando a Escala
MOAS (Modified Overt Aggression Scale). Os resultados
associaram violência com esquizofrenia em 41,8% dos homens
e 32,7% das mulheres, na ausência de comorbidade
com abuso de substâncias. Entre os quatros grupos, houve
aumento na violência somente na amostra de 2000, a qual
poderia ser relacionada com a falta de sucesso nas transformações
do modelo de assistência à saúde mental (Vevera
et al., 2005). Também se observou esse último achado em
estudos realizados nos Estados Unidos e formulou-se a hipótese
de estar associado com a fragmentação e falta de
integração dos serviços de saúde mental no modelo atual
(Hogan, 2003).
Tuninger et al. (2001), na Suécia, avaliaram, pelo período
de 14 meses, 257 pacientes admitidos em unidade psiquiátrica
de emergência para sujeitos que oferecem risco de violência.
A idade média observada foi de 41,3 anos, com predomínio
de pacientes do sexo masculino (n = 160; 62,2%) e
de pacientes psicóticos (n = 228; 88,6%). Em relação ao tipo
de crime, dividido em crime com e sem violência, pacientes
com psicose também foi o grupo que mais cometeu crime
com violência quando comparados aos outros diagnósticos
psiquiátricos. Também se identificou que esse grupo de
pacientes com psicose apresentava freqüência de 40% de
comorbidade com uso de drogas e freqüência de 38% de
antecedente criminal, ambos valores muito superiores aos
da população geral.
Na Inglaterra, estudaram-se as populações de três hospitais
psiquiátricos “especiais”, caracterizados por ser de alta
segurança e oferecer tratamento a pacientes que foram julgados
e ofereciam risco de violência. Examinaram-se os registros
de 1.750 pacientes internados durante o período de
1o de janeiro de 1993 a 30 de junho de 1993 e constatou-se
predomínio de esquizofrenia e transtorno delirante (53%).
Entre os pacientes psicóticos, os sintomas positivos e negativos
estavam significativamente presentes no período
da agressão, assim como sintomas afetivos (principalmente
afeto embotado ou incongruente). Nesses, o principal fator
desencadeante da agressão foram os sintomas delirantes,
que levaram mais a atos violentos do que triviais. Alucinações
na ausência de atividade delirante não tiveram o mesmo
efeito (Taylor et al., 1998).
Segundo Link e Stueve (1994), em estudo epidemiológico
no qual se pesquisou a história de violência em pacientes
psiquiátricos, subgrupos particulares de delírios manifestando
características de controle e perseguição fortemente
se associavam com ato violento. Esse achado é reforçado
pelo estudo realizado por Beck (2001), que examinou a relação
de delírio, abuso de substâncias e violência em pacientes
que foram internados após um crime violento. As
informações foram obtidas por meio de prontuários dos
pacientes utilizando os dados referentes ao período logo
após a hospitalização. Concluiu-se também que a violência
ocorreu pouco freqüentemente na ausência de abuso de
substâncias (Beck, 2001).
Também se verificaram esses achados em um estudo
conduzido por Cheung et al. (1997), em que 31 pacientes
J Bras Psiquiatr, 56(2): 127-133, 2007
130 Teixeira EH et al. REVISÃO DE LITERATURA
definidos como violentos e satisfazendo critérios para esquizofrenia
pelo DSM-III-R foram comparados com 31 pacientes
com o mesmo diagnóstico não violentos. Ambos os grupos
eram constituídos de pacientes de enfermaria psiquiátrica
comum e sem comorbidade com uso de substâncias psicoativas.
Avaliou-se detalhadamente a fenomenologia de
alucinações auditivas utilizando-se MUPS (Mental Health
Research Institute Unusual Perceptions Schedule) e os delírios
utilizando-se MDAS (Maudsley Assessment of Delusions
Schedule). Os resultados indicaram que pacientes no grupo
violento eram mais provavelmente influenciados pelos delírios
persecutórios do que aqueles do grupo não violento,
enquanto pacientes no grupo não violento eram provavelmente
mais influenciados por delírios de grandeza do que
aqueles do grupo não violento (Cheung et al., 1997).
Buchanan et al. (1993), pesquisando a fenomenologia
do delírio e comportamento violento, avaliaram 79 pacientes
psicóticos admitidos em um presídio psiquiátrico. Quando
o comportamento do paciente era descrito por informantes,
não se verificava associação entre a fenomenologia
do delírio e a atuação do delírio. Quando, entretanto, a ação
era descrita pelo próprio paciente, identificaram-se associações
do ato violento com o delírio, no sentido do delírio
induzir o ato (Buchanan et al., 1993).
Indivíduos com esquizofrenia geralmente têm delírios
mais intensos que aqueles em outras categorias diagnósticas.
Delírios de grandeza e religioso relacionaram-se com
aumento na convicção, enquanto delírios persecutórios
foram fortemente marcados por afetos negativos e por
propensão para agir (Appelbaum et al., 1999; Wessely et al.,
1993). Comportamento desviante parece associar-se tanto
ao grau de convicção do delírio como com a resposta afetiva
a este (Dalgalarrondo et al., 2003).
Segundo revisão realizada por Walsh et al. (2001), a maioria
dos estudos empíricos indica a associação entre violência
e esquizofrenia. Tem-se demonstrado repetidamente que
a esquizofrenia com comorbidade de abuso de substância
aumenta o risco de violência consideravelmente quando
comparada com esquizofrenia sem essa comorbidade e
que sintomas psicóticos agudos também se relacionam a
atos violentos (Walsh et al., 2001). Esses achados se tornam
ainda mais relevantes, considerando que pesquisas recentes
têm demonstrado um aumento nas estimativas de abuso de
substâncias por pacientes esquizofrênicos (Soyka, 2000).
Desenvolveram-se várias escalas nas últimas décadas
para avaliar a relação de ato violento com transtorno mental
ou para predizer o risco de agressão. Steinert et al. (2000)
compararam quatro instrumentos disponíveis (MOAS, SDAS,
SOAS e VS) em um estudo com pacientes psiquiátricos internados.
Concluíram que, nos transtornos psicóticos, os
delírios têm maior valor preditivo de violência em relação
às alucinações (Steinert et al., 2000).
Palmstierna e Wistedt (1989) pesquisaram fatores de risco
para comportamento violento entre pacientes internados
involuntariamente. A agressividade foi avaliada durante
o período inicial de internação, entre 8 e 28 dias, e pesquisada
por meio da Escala SOAS (Staff Observation Aggression
Scale). A amostra foi constituída de 105 pacientes, verificando-
se predomínio de pacientes psicóticos. Concluiu-se,
entretanto, que não houve diferença estatisticamente significativa
na proporção nem na freqüência de agressividade
em relação aos diferentes diagnósticos (Palmstierna e
Wistedt, 1989).
Para confirmar achados anteriores que relacionavam
tipo de delírio com crime violento, Appelbaum et al. (2000)
realizaram um estudo prospectivo, em que 1.136 pacientes
foram acompanhados após alta hospitalar durante o
período de 1 ano. Utilizando MMDAS (MacArthur-Maudsley
Assessment of Delusions Schedule), não se constatou
diferença na taxa de violência entre pacientes delirantes e
não delirantes e a relação de violência com delírios de perseguição
e controle, anteriormente encontrada em outras
pesquisas, não foi confirmada (Appelbaum et al., 2000).
Ainda na tentativa de identificar a relação do delírio com
o ato violento, Junginger et al. (1998) avaliaram 54 pacientes
delirantes internados em hospitais psiquiátricos do estado
da Louisiana, nos Estados Unidos. Todos foram submetidos
a duas escalas de 5 pontos, com uma delas estimando o
grau de motivação à violência relacionada ao delírio e a
outra, a gravidade da violência. Concluíram que a motivação
à violência pelo delírio é rara, porém relataram um risco
moderado de que isso ocorra durante o curso da doença
(Junginger et al., 1998).
Poucos estudos avaliaram o comportamento violento
entre pacientes com transtornos mentais graves considerando
as diferenças de gênero. Binder et al. estudaram a
relação entre gênero e violência em pacientes antes da admissão
e durante o período inicial de internação. Avaliaramse
253 (48% de mulheres) indivíduos durante 1983 e 1984.
Concluiu-se que homens são menos violentos que mulheres
nos primeiros dias de internação, independentemente
da psicopatologia. Quanto aos pacientes com esquizofrenia,
não houve diferença entre os gêneros. Os pacientes
neste estudo apresentavam menor risco de violência nos
primeiros dias de internação (Binder e McNiel, 1990).
Realizaram-se vários estudos descritivos dando-se ênfase
à fenomenologia do crime. Conforme estudo realizado
por Hafner e Boker (1982), quando comparada a agressão
homicida de pacientes psicóticos em relação a pacientes
não-psicóticos, avaliando os registros de todas as tentativas
de homicídio por doentes mentais na Alemanha, durante
um período de 10 anos, observou-se taxa elevada de vítimas
parentes de psicóticos (Hafner e Boker, 1982; Josef e Silva,
2003). Esse achado também foi observado por Nestor (1992),
que estudou pacientes internados em um hospital psiquiá-
J Bras Psiquiatr, 56(2): 127-133, 2007
REVISÃO DE LITERATURA Esquizofrenia, psicopatologia e crime violento: uma revisão 131
cidade de Los Angeles, Estados Unidos, uma população de
172 indivíduos com esquizofrenia. Todos tinham moradia e
não apresentavam comorbidade com transtorno por uso
de substâncias. Apesar de 48% deles terem tido contato
com a polícia durante o período, o grupo pesquisado foi
14 vezes mais vítima de um crime violento do que causadores
(Brekke et al., 2001). Esses achados foram questionados
posteriormente em relação ao ambiente urbano, muito
desfavorável para o paciente esquizofrênico, o qual poderia
estar favorecendo a situação de vítima de crime violento
(Hume, 2001).
DIS CUSS ÃO
No estudo das possíveis associações entre esquizofrenia e
crime, muitas pesquisas foram realizadas por meio de registros
de documentos médicos ou policiais, basicamente
retrospectivos e geralmente muito tempo após a ocorrência
do ato violento. Este aspecto é ainda mais complexo
quando pensamos em crime violento ocorrido no período
prodrômico de um quadro de esquizofrenia. Nesta fase
classicamente denominada de “período médico-legal” das
psicoses, os crimes descritos são geralmente súbitos, aparentemente
imotivados ou até bizarros (Oliveira, 2006).
Embora as evidências estatísticas e empíricas indiquem
a existência de uma relação entre crime violento e psicose,
isto apenas representa uma pequena parte da violência
ocorrida na comunidade. É bastante plausível que em países
como Brasil, no qual a violência e a criminalidade têm
intensa associação com condições socioeconômicas, como
as que se verificam nos bolsões de miséria das periferias
das grandes e médias cidades brasileiras, o percentual dos
crimes associados a transtornos mentais graves seja ainda
menor. Portanto, apenas uma pequena parcela da violência
deve ser atribuída a pacientes psicóticos, mais especificamente
aos sujeitos com esquizofrenia, principalmente em
nosso país.
Apesar das limitações metodológicas, alguns aspectos
da psicopatologia aguda da psicose, comorbidade com
álcool/drogas ou transtorno de personalidade parecem
estar intensamente relacionados à presença de comportamento
violento entre pacientes psicóticos. O abuso de
substâncias relacionado ao crime é ainda mais importante
dado o aumento nas estimativas da comorbidade de abuso
de substâncias com esquizofrenia e sua relação também
com baixa adesão ao tratamento e aumento no índice de
admissão hospitalar.
Alguns trabalhos científicos demonstraram que delírios
de controle ou ameaça poderiam estar relacionados com o
desencadeamento do comportamento violento, sugerindo
que aspectos próprios dos delírios estariam envolvidos na
atuação criminosa. Apesar de esses achados terem sido postrico
de segurança máxima nos Estados Unidos, entre 1987
e 1989. A amostra foi constituída de 40 pacientes e todos
foram submetidos à avaliação neuropsicológica, com testes
específicos de nível de inteligência, além do estudo psicopatológico
do agressor e perfil das vítimas (Nestor, 1992).
Avaliando as características psicopatológicas do quadro
psicótico, parece que o tipo de delírio e o grau de convicção
têm relação intrínseca com o comportamento violento.
Silva et al. (1997), em um estudo descritivo de um paciente
com delírio cujo conteúdo era acreditar ser o “anti-Cristo”
e com histórico de seqüestro e estupro de duas mulheres
sob uso de PCP (fenilciclidina), verificaram elevado grau de
convicção, complexidade do delírio e baixa resposta farmacológica
(Silva et al., 1997). Esse dado é reforçado pelo estudo
realizado por Appelbaum et al. (1999), que estudaram
pacientes delirantes com história de violência e constataram
elevado grau de convicção nos delírios de grandeza e
religioso (Appelbaum et al., 1999).
Estudo retrospectivo realizado por Kristine et al. (1997),
no qual se avaliaram diferenças entre agressores psicóticos
e não psicóticos submetidos a exames periciais para avaliar
responsabilidade criminal, constatou que os sujeitos psicóticos
visitaram a casa da vítima mais freqüentemente que os
não-psicóticos e que os não-psicóticos fizeram mais ameaças
verbais que os psicóticos (Kristine et al., 1997).
Associação de transtornos mentais com
violência na comunidade
Brennan et al. (2000) rastrearam todas as prisões por violências
e hospitalizações por transtorno mental na Dinamarca,
em um estudo de coorte em pessoas de até 44 anos de
idade. Selecionaram-se os sujeitos de todos os nascimentos
ocorridos entre 1o de janeiro de 1944 a 31 de dezembro de
1947, num total de 358.180 indivíduos. Verificou-se que a esquizofrenia
era o único transtorno mental que se associava
a aumento no risco de crime violento em ambos os sexos
(Brennan et al., 2000). Estudo semelhante que pesquisou a
relação de internação psiquiátrica com ofensa criminal também
constatou achados similares (Hodgins et al., 1996). Utilizando
ainda a mesma metodologia, Tiihonen et al. (1997)
avaliaram 12.058 indivíduos na Finlândia e verificaram risco
de ofensa violenta sete vezes maior entre pacientes esquizofrênicos
quando comparados aos controles sem transtorno
mental.
Com o processo de desinstitucionalização, os pacientes
com transtornos mentais graves passaram com maior freqüência
a viver na comunidade. A questão da violência em
relação a essa nova situação é levantada tanto quando são
considerados os riscos que alguns pacientes graves podem
oferecer à comunidade, como também nos riscos de serem
vítimas de violência, considerando pessoas com esquizofrenia
como uma população potencialmente vulnerável. Neste
sentido, Brekke et al. pesquisaram durante 1989 e 1991, na
J Bras Psiquiatr, 56(2): 127-133, 2007
132 Teixeira EH et al. REVISÃO DE LITERATURA
teriormente questionados em estudos prospectivos, novas
pesquisas poderão trazer informações esclarecedoras.
As pesquisas mais recentes têm procurado avaliar o paciente
no menor tempo após o ato violento, buscando aspectos
importantes da fenomenologia do estado psicótico,
para que futuramente possa ser identificado antecipadamente
o risco de comportamento violento.
Apesar de tratar-se de um tema complexo e que por
algum tempo deixou de ser investigado em virtude de
seu caráter polêmico, o momento requer amplo debate e
pesquisas que permitam futuramente ações preventivas
e terapêuticas eficazes. Nota-se que a própria falta de dados
esclarecedores ou preditivos perpetua a sensação de
insegurança e medo, sendo estes provavelmente as mais
importantes fontes de estigma em relação ao sujeito com
um grave transtorno mental. Ações e intervenções contra
o preconceito e o estigma falharão se não se basearem em
dados confiáveis, em pesquisas rigorosas e numa aproximação
do transtorno mental grave que seja a um só tempo
realista, humana e ética.
conclusões
Alguns aspectos da psicopatologia aguda da psicose e da comorbidade
de abuso de substâncias parecem estar intensamente
relacionados à presença de comportamento violento
entre pacientes psicóticos. De acordo com os estudos analisados,
somente uma pequena parcela da violência social poder
ser atribuída a esse grupo de pacientes. Novas pesquisas deverão
futuramente permitir prever antecipadamente o risco de
um comportamento violento, permitindo com isso intervenções
preventivas e redução do processo de estigmatização.
REFER ÊNCIAS
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