sábado, 28 de julho de 2012

Transtorno Obsessivo Compulsivo: Reducionismo Dual do Sofrimento Existencial A Vivência Rígida do Arquétipo Patriarcal - Mário Biscaia


“ Fui tornando-me um prisioneiro de medos absurdos.
Tinha que repetir meus passos, começar cada movimento
e voltar novamente.Sabia que aquilo tudo era ridículo
e deplorava todo o tempo perdido,mas era inútil...
Os rituais sempre venciam”
R.M., 36 anos, Advogado
I. INTRODUÇÃO:
       O Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) é uma doença de evolução crônica ou recorrente, caracterizada pela presença de Obsessões e Compulsões.
       Obsessões são pensamentos, idéias, impulsos e imagens mentais recorrentes, intrusivos e vivenciados como desagradáveis e como próprios do individuo, ocasionando ansiedade ou mal estar, um estado de angústia patológica, que consomem muito tempo e interferem negativamente nos relacionamentos e atividades do portador.
       Compulsões são comportamentos ou atos mentais repetitivos, realizados para diminuir a angústia causada pelas obsessões, obedecendo a regras rígidas, forçando o individuo a agir contra sua vontade e podem ter a finalidade a evitação de uma situação temida.
      Embora existam descrições deste transtorno desde o século dezoito, ele ficou abandonado pelos profissionais de saúde mental e meios de comunicação até recentemente, quando se acentuaram os estudos e pesquisas, principalmente nas áreas da neurociência e da psicofarmacologia, além de uma maior divulgação dos sintomas do TOC na rede social. Personalidades famosas no meio artístico, como o cantor Roberto Carlos e a atriz Luciana Vendramini, vieram à público falar abertamente do TOC e assumiram serem portadores desse transtorno. O filme “ Melhor é Impossível” “, vencedor de 2 Oscars, no qual o protagonista apresenta o transtorno, também teve sua importância e será alvo de estudo mais aprofundado nesse trabalho.
      Apesar dessa maior divulgação do TOC como doença, alguns estudos mostram que, em média, há um intervalo de 7 anos desde o início da sintomatologia e a procura de ajuda, freqüentemente determinada por familiares e amigos que já não suportam o que esta acontecendo com o portador. Ele tenta manter em segredo seu transtorno e tem consciência da falta de sentido das obsessões e compulsões, procurando se calar até das pessoas com quem convive intimamente.
      Ocupa o quarto lugar entre os transtornos psiquiátricos mais comuns, com incidência de 2% na população, e é colocado pela Organização Mundial de Saúde entre as 10 condições médicas, de todas as especialidades, mais incapacitantes para os indivíduos atingidos. O início dos sintomas aparece com maior freqüência na adolescência e no adulto jovem, sendo raro na infância. Surgem mais precocemente nos homens, embora, em geral, aceita-se que o TOC comprometa igualmente ambos os sexos.
      Enquanto as obsessões e compulsões são o sine qua non do Transtorno Obsessivo Compulsivo, pensamentos obsessivos e rituais compulsivos são vistos em várias outras doenças, fazendo surgir o conceito de “Espectro Obsessivo Compulsivo”. Essas doenças são caracterizadas por distorções do pensamento e comportamentos estereotipados ou ritualísticos, tendo como exemplos as seguintes patologias: transtorno dismórfico corporal, anorexia nervosa, hipocondria, síndrome de Tourette, compulsões sexuais, dependência química, jogo patológico,tricotilomania e outras. Apesar das tentativas psiquiátricas serem primariamente de classificar estes transtornos em categorias distintas, sabe-se que aspectos dimensionais do Espectro Obsessivo Compulsivo estão presentes. Diante desse Espectro e em função das semelhanças clínicas, variando apenas os objetos, pensamentos e atitudes, conjuntamente com os resultados terapêuticos, surge em vários países do mundo uma nova especialidade médica chamada “Medicina da Adicção” . Em 1999, no Estado da Califórnia- EUA, ocorre a fundação da Sociedade Internacional da Medicina da Adicção ( ISAM ), com a participação de representantes de mais de 50 países do mundo. Tal especialidade surge, exatamente, para englobar todas as patologias do Espectro Obsessivo Compulsivo, procurando aprimorar e investir nas pesquisas, tanto clínicas como epidemiológicas, na tentativa de melhorar os baixos índices de sucessos terapêuticos. O termo adicção ou mais especificamente adicto significa escravo, oriundo do latim- “adictum” que se traduz como “escravo por dívida”, caracterizando assim os portadores de patologias da área da Medicina da Adicção, como indivíduos aprisionados dentro dos seus rituais e pensamentos obsessivos, tornando-os reféns de si próprio.
      Na primeira parte do trabalho serão relatados os critérios diagnósticos do TOC, os principais diagnósticos diferenciais seguido de uma leitura Junguiana dessa patologia. Dentro da riqueza simbólica existente tanto no pensamento mítico quanto na linguagem cinematográfica, serão analisados o Mito de Sísifo e o filme Melhor é Impossível.
 II-  CRITÉRIOS PARA O DIAGNÓSTICO DO TOC:
       1)  A classificação internacional das doenças da Organização Mundial de Saúde-OMS, coloca o TOC junto aos “Transtornos neuróticos, relacionados ao estresse e somatoformes”  e recomenda para seu diagnóstico-CID-10-(F42):
       Os sintomas obsessivos, atos compulsivos ou ambos devem estar presentes na maioria dos dias por pelo menos duas semanas consecutivas e ser fonte de angústia ou de interferência com as atividades.
      Características:
-         Os sintomas devem ser reconhecidos como pensamentos ou impulsos do próprio individuo.
-         Deve haver pelo menos um pensamento ou ato que ainda é resistido, sem sucesso,ainda que possam estar presentes outros aos quais o paciente não resiste mais.
-         O pensamento de execução do ato não deve ser em si mesmo prazeroso (o simples alívio de tensão ou ansiedade não é, neste sentido, considerado como prazer).
-         Os pensamentos, imagens ou impulsos devem ser desagradavelmente repetitivos.

       2) O Manual Estatístico e Diagnóstico da Associação Psiquiátrica Americana-DSM-IV, considera o TOC no grupo dos Transtornos de ansiedade e estabelece que o diagnóstico deve ser feito com os seguintes critérios ( 300.3 ) :
       A) Presença de obsessões ou compulsões. ( obs: já definidos anteriormente).
        B) Em algum ponto do curso do transtorno a pessoa reconheceu que as compulsões são excessivas ou irrazoáveis. Nota: isso não se aplica a crianças.
         C) As obsessões ou compulsões causam acentuado sofrimento, consomem tempo (mais que 1 hora ao dia) ou interferem significativamente com a rotina normal da pessoa, com o funcionamento ocupacional ou acadêmico, atividades ou relacionamentos sociais habituais do individuo.
          D) Se um outro transtorno do eixo I esta presente e o conteúdo das obsessões e compulsões não esta restrito a ele (por ex: preocupação com ter uma doença grave na presença de Hipocondria; preocupação com a aparência na presença de Transtorno Dismórfico Corporal; etc)...).
         E) A perturbação não se deve aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância (por ex., droga de abuso, medicamentos) ou a uma condição médica geral.
          Especificar se:
         Com Insight Pobre: se, na maior parte do tempo durante o episódio atual, o individuo não reconhece que as obsessões e compulsões são excessivas ou irracionais.
  
III- DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL:
            Devido à complexidade da sintomatologia do TOC associado às diversas patologias do Espectro Obsessivo Compulsivo, a realização de um diagnóstico correto, torna-se um dos aspectos mais relevantes na pratica clínica.É importante mencionar que teremos avaliações diferenciadas, dependendo de qual leitura seja utilizada; psiquiátrica, psicanalítica Freudiana, no âmbito da medicina da adicção, da Psicologia Junguiana e outras.No momento, vou me ater a nosografia psiquiátrica e no próximo item descreverei a visão Junguiana.
            A diferenciação entre TOC e um transtorno depressivo pode ser difícil, devido ao fato desses dois tipos de sintomas freqüentemente caminharem juntos. Em geral, os pacientes obsessivos admitem que as suas obsessões não são baseadas na realidade, enquanto os pacientes com depressão primária relacionam suas preocupações com a realidade. Sendo a depressão a complicação mais comum do TOC, é importante definir quais os sintomas que surgiram primeiro e diferenciar das depressões graves que freqüentemente apresentam sintomas obsessivos e são primárias. Essas evoluem com tristeza profunda, anedonia, delírios de ruína, transtornos do sono e ideação suicida.
        O diagnóstico diferencial com a esquizofrenia e outros transtornos psicóticos também é de suma importância na implementação de uma terapêutica adequada e na avaliação do prognóstico. Alguns autores sugerem que a tradição de se considerar o TOC como uma neurose, tem levado a uma subvalorização de aspectos da síndrome que mais parecem psicóticos. A mudança de uma obsessão para um quadro delirante ocorre quando a resistência interna contra as idéias obsessivas é abandonada e o insight é perdido. Isso poderia ocorrer de duas formas; uma forma afetiva, quando o medo da contaminação é substituído por uma culpa delirante de que o paciente contaminou ou pode contaminar outras pessoas, e uma forma paranóide, quando dúvidas sobre haver cometido algum ato repreensível são substituídas pelo delírio de que o paciente estaria sendo perseguido por realmente haver cometido atos condenáveis.
         O TOC deve ser diferenciado dos outros Transtornos de Ansiedade,alem das patologias do Espectro Obsessivo Compulsivo, que apresentam suas particularidades, embora não devendo ser descartada a hipótese da coexistência com o TOC. Embora o Transtorno de Personalidade Obsessiva Compulsiva e o TOC tenham nomes similares, as manifestações clínicas de ambos são bastante diferentes. O transtorno de personalidade não se caracteriza pela presença de obsessões ou compulsões , sendo que, ao invés disso, envolve um padrão invasivo de preocupação com organização, perfeccionismo e controle e deve iniciar-se nos primeiros anos da idade adulta.
  
IV- VISÃO JUNGUIANA:
             Dentro de uma visão Junguiana e na perspectiva simbólica é importante situarmos o TOC lado a lado com o funcionamento normal da personalidade.
             O conceito de Arquétipo de Jung demonstra ser útil em situar o TOC no Espectro Obsessivo Compulsivo e este, no desenvolvimento normal. Sendo o Arquétipo um padrão de funcionamento psicológico, cuja principal característica é a criatividade ele engloba o desenvolvimento normal e patológico, ele é o conceito ideal para ser ampliado junto com o conceito de símbolo para englobar também as três vertentes: a psicodinâmica, a neurológica e a psicofarmacológica na normalidade e na patologia.
              O TOC é uma neurose e, na psicologia Junguiana, a neurose tem uma função de reorganização psíquica. A neurose “é uma tentativa de auto cura, bem como qualquer doença física também o é (...); é uma tentativa do sistema psíquico auto-regulador de reestruturar o equilíbrio, que em nada difere da função dos sonhos, sendo apenas mais drástica e  pressionadora” ( Jung,18/1, 157).
              Se os Arquétipos são os componentes universais da psique, podemos dizer que neles está ou que eles geram esse potencial auto-regulador. Nesse sentido, James Hillman utiliza-se de uma citação de Jung a fim de considerar a psicopatologia na sua dimensão Arquetípica  para           “reconhecer os próprios Deuses como patologizados, as infirmitas do Arquétipo”.
       Daí Hillman conclui que a doença, enquanto Arquetípica, é universal e necessária: “Ao pressupor que o necessário é o que ocorre entre os Deuses, isto é, que os mitos descrevem padrões necessários, concluímos que as suas patologizações são necessárias, assim como as nossas são necessárias à mimese das deles. Uma vez que as infirmitas deles, são essenciais para uma configuração plena, segue-se que nossas patologias são necessárias à nossa completude”.
        Conseqüentemente, podemos considerar que o Espectro Obsessivo Compulsivo tem um motivo para se fazer presente, e este motivo será, em última análise, a completude da pessoa que dele padece, ou seja, a individuação. Em outras palavras, esse potencial auto-regulador do Arquétipo opera através dos próprios sintomas (similia simililus curantur).
        O que é central na perspectiva simbólica do TOC é a apresentação de um quadro sintomático muito mais exuberante que os quadros habituais rigidamente organizados e de dominância patriarcal. Tal fato, se deve primariamente, à debilidade da função Arquetípica e não a sua intensidade como pode parecer a primeira vista..
      Existem diferenças nas características dos Espectros Histérico e Obsessivo Compulsivo ao nível neurológico e arquetípico; enquanto que o Arquétipo Matriarcal e o Espectro Histérico se expressam através do sistema endócrino e autônomo, o Arquétipo Patriarcal e o Espectro Obsessivo Compulsivo se expressam basicamente pelo sistema motivacional. No dinamismo patriarcal temos a amplificação neurológica, no hipotálamo, do sistema motivacional que liga a consciência à musculatura esquelética através de circuitos neuronais, que incluem os núcleos da base do cérebro.
       O Arquétipo Patriarcal pelo fato de funcionar através da organização sistemática necessita da separação Eu-Outro, Consciente-Inconsciente muito bem delimitada, de tal maneira que encontra no sistema nervoso motivacional um tipo de funcionamento que lhe corresponde. A vivência rígida do Arquétipo Patriarcal se destaca como questão fundamental no TOC. O Eu age sobre a obsessão, volitivamente, através dos rituais, mesmo com a presença de defesas inconscientes. Um ritual para evitar sujeira pode ser muito ativo e ao mesmo tempo esconder, defensivamente, que essa sujeira se refere à sexualidade( Byington).
      Os Arquétipos Matriarcal e Patriarcal não funcionam isoladamente, ficando claro que tanto no TOC como na Histeria existe um entrecruzamento dos mesmos, embora a predominância da patologização do Arquétipo Patriarcal esteja relacionada diretamente com todo o desenvolvimento dos sintomas no Espectro Obsessivo Compulsivo.
  
V- PENSAMENTO MÍTICO:-O MITO DE SÍSIFO.
                                                                                                        
             A) RELATO DO MITO: Reflexões da versão de Albert  Camus.
         Os deuses tinham condenado Sísifo a empurrar sem descanso um rochedo até ao cume de uma montanha, de onde a pedra caía de novo, em conseqüência do seu peso.  Tinham pensado, com alguma razão, que não há castigo mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.
        A acreditar em Homero, Sísifo era o mais ajuizado e mais prudente dos mortais. No entanto, segundo outra tradição, tinha tendências para a profissão de bandido. Não vejo nisto a menor contradição. As opiniões diferem sobre os motivos que lhe valeram ser trabalhador inútil dos infernos. Censura-se-lhe, de início, certa leviandade para com os deuses. Revelou os segredos deles. Egina, filha de Asopo, foi raptada por Zeus. O pai espantou-se com esse desaparecimento e queixou-se dele a Sísifo. Este, que estava sabendo do rapto, propôs a Asopo contar-lhe o que sabia, com a condição de ele dar água à cidade de Corinto. Aos raios celestes, preferiu a bênção da água. Por tal foi castigado nos infernos. Homero conta-nos também que Sísifo havia acorrentado Tanatos. Hades não pôde suportar o espetáculo do seu império deserto e silencioso. Enviou os deuses da guerra, que soltaram Tanatos das mãos do seu vencedor.

       Diz-se ainda que, estando Sísifo quase a morrer, quis, imprudentemente, pôr à prova o amor de sua mulher. Ordenou-lhe que lançasse o seu corpo, sem sepultura, para o meio da praça pública. Sísifo encontrou-se nos infernos. E aí, irritado com uma obediência tão contrária ao amor humano, obteve de Hades licença para voltar a terra e castigar a mulher. Mas, quando viu de novo o rosto deste mundo, sentiu inebriadamente a água e o sol, as pedras quentes e o mar, não quis regressar à sombra infernal. Os chamamentos, as cóleras e os avisos de nada serviram. Ainda viveu muitos anos diante da curva do golfo, do mar resplandecente e dos sorrisos da terra. Hermes veio pegar o audacioso pela gola e, roubando-o às alegrias, levou-o à força para os infernos, onde o seu rochedo já estava pronto.
       Já todos compreenderam que Sísifo é o herói absurdo. É-o tanto pelas suas paixões como pelo seu tormento. O seu desprezo pelos deuses, o seu ódio à morte e a sua paixão pela vida valeram-lhe esse suplício indizível em que o seu ser se emprega em nada terminar. É o preço que é necessário pagar pelas paixões desta terra. Não nos dizem nada sobre Sísifo nos infernos. Os mitos são feitos para que a imaginação os anime. Neste, vê-se simplesmente todo o esforço de um corpo tenso, que se esforça por erguer a enorme pedra, rolá-la e ajudá-la a levar a cabo uma subida cem vezes recomeçada; vê-se o rosto crispado, a face colada à pedra, o socorro de um ombro que recebe o choque dessa massa coberta de barro, de um pé que a escora, os braços que de novo empurram, a segurança bem humana de duas mãos cheias de terra. No termo desse longo esforço, medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, a finalidade está atingida. Sísifo vê então a pedra resvalar em poucos instantes para esse mundo inferior de onde será preciso trazê-la de novo para os cumes. E desce outra vez à planície.  É durante este regresso, esta pausa, que Sísifo me interessa. Um rosto que sofre tão perto das pedras já é, ele próprio, pedra! Vejo esse homem descer outra vez, com um andar pesado mais igual, para o tormento cujo fim nunca conhecerá. Essa hora que é como uma respiração e que regressa com tanta certeza como a sua desgraça, essa hora é a da consciência. Em cada um desses instantes em que ele abandona os cumes e se enterra a pouco e pouco nos covis dos deuses, Sísifo é superior ao seu destino. É mais forte do que o seu rochedo.  Se este mito é trágico, é porque o seu herói é consciente. Onde estaria, com efeito, a sua tortura se a cada passo a esperança de conseguir o ajudasse? O operário de hoje trabalha todos os dias da sua vida nas mesmas tarefas, e esse destino não é menos absurdo. Mas só é trágico nos raros momentos em que ele se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão da sua miserável condição: é nela que ele pensa durante a sua descida. A clarividência que devia fazer o seu tormento consome ao mesmo tempo a sua vitória. Não há destino que não se transcenda pelo desprezo.  Se a descida se faz assim, em certos dias, na dor, pode também se fazer na alegria. Esta palavra não é exagerada. Ainda imagino Sísifo voltando para o seu rochedo, e a dor estava no começo. Quando as imagens da terra se apegam de mais à lembrança, quando o chamamento da felicidade se torna demasiado premente, acontece que a tristeza se ergue no coração do homem: é a vitória do rochedo, é o próprio rochedo. O imenso infortúnio é pesado demais para se poder carregar.  São as nossas noites de Gethsemani. Mas as verdades esmagadoras morrem quando são reconhecidas. Assim, Édipo obedece de início ao destino, sem o saber. A partir do momento em que sabe, a sua tragédia começa. Mas no mesmo instante, cego e desesperado, ele reconhece que o único elo que o prende ao mundo é a mão fresca de uma jovem. Uma frase desmedida ressoa então: “Apesar de tantas provações, a minha idade avançada e a grandeza da minha alma fazem-me achar que tudo está bem”.O Édipo de Sófocles, como o Kirilov de Dostoievsky, dá assim a fórmula da vitória absurda. A sabedoria antiga identifica-se com o heroísmo moderno.
       Não descobrimos o absurdo sem nos sentirmos tentados a escrever um manual qualquer da felicidade. “O quê, por caminhos tão estreitos?...” Mas só há um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Acontece também que o sentimento do absurdo nasça da felicidade. “Acho que tudo está bem”, diz Édipo e essa frase é sagrada. Ressoa no universo altivo e limitado do homem. Ensina que nem tudo está, que nem tudo foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele entrara com a insatisfação e o gosto das dores inúteis. Faz do destino uma questão do homem, que deve ser tratado entre homens. Toda a alegria silenciosa de Sísifo aqui reside. O seu destino pertence-lhe. O seu rochedo é a sua coisa. Da mesma maneira, quando o homem absurdo contempla o seu tormento, faz calar todos os ídolos. No universo subitamente entregue ao seu silêncio, erguem-se as vozes maravilhosas da terra. Chamamentos inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o preço da vitória. Não há sol sem sombra e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e o seu esforço nunca mais cessará. Se há um destino pessoal, não há destino superior ou, pelo menos, só há um que ele julga fatal e desprezível. Quanto ao resto, ele sabe-se senhor dos seus dias.  Nesse instante sutil em que o homem se volta para a sua vida, Sísifo, regressando ao seu rochedo, contempla essa seqüência de ações sem elo que se torna o seu destino, criado por ele, unido sob o olhar da sua memória, e selado em breve pela sua morte. Assim, persuadido da origem bem humana de tudo o que é humano, cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim, está sempre em marcha. O rochedo ainda rola.
       Deixo Sísifo no sopé da montanha! Encontramos sempre o nosso fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também julga que tudo está bem. Esse universo enfim sem dono não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.

                   B) COMENTÁRIOS:
             O mito é o exemplo da improdutividade do Transtorno Obsessivo Compulsivo; são indivíduos que consomem uma energia e um tempo enorme na repetição de seus rituais. O relato do mito na narrativa de Albert Camus, acentua tratar-se da representação da essência da condição humana. Controlar a natureza simbolicamente empurrando pedras montanha acima, que rolarão depois e serão outra vez empurradas por nós e algum dia por outros é uma forma de descrevermos o caminho da humanidade. Camus coloca, através do seu Homem Absurdo, toda sua indignação e revolta com um aspecto da existência humana, chegando a definir que o grande conflito seria se deveríamos ou não optar pelo suicídio. Para suportar seus questionamentos existenciais, Camus procurou através do mito de Sísifo fazer várias elaborações, projetando na consciência do mesmo pensamentos e insights pessoais até conseguir enxergar um Sísifo feliz diante do seu eterno sofrimento. Afinal, empurramos pedras montanha acima, sem nunca chegar a construir as montanhas. Como escreveu, em uma de suas músicas, o roqueiro Lulu Santos: “Assim caminha a humanidade com passos de formiga e sem vontade”.
           Podemos denominar de Síndrome de Sísifo a um conjunto de comportamentos e de modos de raciocínio que levam as pessoas a repetirem, os mesmos hábitos, as mesmas tarefas, o mesmo modo de raciocinar, os mesmos procedimentos e as mesmas soluções, reiteradamente e até compulsivamente, sendo as pessoas levadas a defender tais comportamentos com argumentos lógicos que consideram comprovadamente certos e irrefutáveis - ainda assim, essas pessoas imaginam poder alcançar resultados diferentes, criativos e inovadores. Afinal,  não há maior sinal de doença do que fazer a mesma coisa repetidamente e esperar, a cada vez,um resultado diferente.
           A grande questão representada em toda história de Sísifo, se resume na dualidade e na contradição entre: enganar, ser desonesto, driblar a morte e o imprevisível, afrontar a figura de autoridade/paterna ou se submeter por toda eternidade a uma jornada cansativa, inócua e repetitiva. Não existe para Sísifo a opção da escolha. Após viver com criatividade e habilidade no enfrentamento das situações adversas; ao final, recebe o castigo eterno, aceita passivamente o seu destino.Sua criatividade tinha sido exemplarmente punida pelo poder de Zeus. Essa mesma contradição, vive-se atualmente no Brasil e no Mundo, onde a dualidade se apresenta entre ser os operários do regime totalitário econômico, imediatista e consumista, se contrapondo aos participantes desse mesmo regime, que demonstram através de condutas, profissionais e pessoais,  atitudes  antiéticas, sem respeito ao próximo e sem dar o devido valor à cidadania. É o retorno ao Khaos.
          Para finalizar essas reflexões, gostaria de citar o saudoso colega Dr. Hélio Pellegrino: “Seja como for, a aventura humana é passagem, do tempo para a eternidade, ou da necessidade para a liberdade. O homem é, portanto, um Deus em construção, nunca Deus acabado. A exigência, consciente ou não, de ser Deus, perfeito e onipotente, acarreta sempre um agudo ódio e desprezo pela condição humana. É esta a posição filosófica do pensador absurdo, descrita por Camus no”Mito de Sísifo”. O pensador absurdo rejeita a razão humana, limitada e imperfeita, bem  como a suprema injúria de uma morte possível. Com isto confessa sua arrogância e dá notícia da monstruosa impaciência que o corrói, cuja raiz é o sentimento de impotência, filha do isolamento.
          Tenho que experimentar e assumir, até o último hausto, o fracasso do meu orgulho positivista, racionalista e individualista. Se a ele fico aprisionado, é porque, na verdade, não o esgotei, nem cheguei a supera-lo. Se, ao constatar sua falência, exijo ser Deus, como o faz, no fundo, o pensador absurdo, é porque pretendo manter-me na torre do meu esplêndido isolamento, sem carecer de nada. O homem só assume o clarão da divindade que o habita quando desiste de salvar-se sozinho. A salvação, ou é negócio de todos, ou de ninguém ““.

VI- O CINEMA E SUA LINGUAGEM- FILME: “Melhor é Impossível”.
    A) SINOPSE

 Dirigido por James L. Brooks. Com Jack Nicholson,
Helen Hunt, Greg Kinnear, Cuba Gooding Jr., Skeet
Ulrich, Shirley Knight, Yeardley Smith e Harold Ramis
 .
          Melvin Udall é um homem insuportável. Ele tem preconceito com relação a homossexuais, negros e mulheres. Ele é um obsessivo-compulsivo. Ele não
pensa duas vezes antes de ofender alguém. Ele é capaz de atirar um cachorrinho na lixeira de um prédio. Resumindo: é o típico personagem fácil de se odiar... se não fosse interpretado por Jack Nicholson.

          Nas mãos de Nicholson, no entanto, ele se torna adorável e, por incrível que pareça, as coisas terríveis que ele faz (como chamar uma garçonete gordinha de ‘Mulher-Elefante’) acabam tornando-o ainda mais simpático aos nossos olhos. E, à medida em que o filme se desenvolve, o espectador vai esperando com prazer antecipado o momento em que o sujeito vai soltar outra de suas tiradas.

          Melvin escreve sobre o universo feminino. Ele passa grande parte de seu dia em casa, escrevendo, saindo apenas para almoçar na mesma lanchonete todos os dias (tomando o devido cuidado para não pisar nas rachaduras da calçada). Lá, ele é sempre atendido pela mesma garçonete, Carol (Hunt), cujo filho de nove anos sofre de asma intensa. Curiosamente, Carol parece não se importar muito com as ofensas que dirige a todos (a não ser que envolva seu filho, claro), e até mesmo o defende para que o dono da lanchonete não o expulse dali. Além disso, Melvin tem que lidar com seu vizinho
Simon (Kinnear), um pintor gay que possui um cachorrinho insuportável para seus padrões de higiene.

          A partir destes três personagens, o roteiro de Mark Andrus e James L. Brooks cria uma série de situações que mesclam momentos absolutamente cômicos com outros que se aproveitam do potencial sensível que a história oferece (principalmente aqueles envolvendo Carol e a doença do filho e a relação entre Simon e seus pais). Mas Melhor é
Impossível é muito mais do que um roteiro bem-escrito. Este é um filme que se apóia
totalmente nas interpretações de seus atores principais.

          Primeiro Nicholson. Ele é, sem dúvida, a alma do filme. Nas mãos de qualquer outro ator, Melvin teria se tornado um ser insuportável. Mas James L. Brooks foi sábio ao escalar seu velho parceiro para o papel. Jack Nicholson não é apenas um bom ator. Mais importante do que isso: ao longo dos anos todos os fãs de cinema foram se habituando a ver este ator como um louco divertido. Assim sendo, não é preciso grande esforço para se estabelecer o ponto mais importante do filme: a doença de Melvin é divertida para o espectador, que se delicia com cada um dos detalhes de sua obsessão. No entanto, para o próprio Melvin sua “loucura” é o centro da própria doença. Ele não consegue aceitar o fato de que não tem controle sobre os próprios atos.

          Quanto à Helen Hunt... bem, confesso que não estava esperando muita coisa, porém, seu trabalho em Melhor é Impossível me surpreendeu.Hunt é capaz de comover com a mesma facilidade com que nos faz rir. Ela é adorável, frágil... para falar a verdade, eu tive vontade de protegê-la. E me simpatizei com sua Carol de tal forma que as únicas cenas em que fiquei “irritado” com Nicholson foram aquelas nas quais ele dizia algo grosseiro para a moça. Um ótimo trabalho que mereceu o reconhecimento (e o Globo de Ouro) que obteve, sem dúvida.

           Greg Kinnear também merece reconhecimento. Seu personagem oferece oportunidade para o ator trabalhar outras nuanças que não existiam no personagem de Rupert Everett de O Casamento do Meu Melhor Amigo (com quem Kinnear foi muito comparado).

           No entanto, Melhor É Impossível também comete seus erros: Brooks não inova muito em cima deste material riquíssimo oferecido pela história de Mark Andrus. O caminho da “transformação” de Melvin é totalmente previsível: primeiro o filme mostra que ele odeia animais. Depois,homossexuais. Depois negros e, por fim, mulheres. Sua “recuperação” segue quase o mesmo caminho: ele passa a aceitar cães, depois passa a se entender com o marchand vivido por Cuba Gooding Jr., em seguida homossexuais e, por fim, mulheres. É quase como se o diretor quisesse nos convencer de que o caminho a ser seguido por Melvin dependesse de uma  ordem “pré-estabelecida”,e talvez desconhecendo a gravidade de um transtorno  Obsessivo Compulsivo e a  complexidade do seu tratamento.  Este filme é ‘certinho’ demais.


   B)  COMENTÁRIOS:

          O grande poder transformador do cinema, ocorre na medida que estabelece um diálogo entre conteúdos imaginários que se encontram, ainda que inconscientes no imaginário coletivo. Este é permeado por mitos e símbolos que são plenamente compreendidos, pois fazem parte da psique de todos os homens. A arte é o espelho da vida que mostra aos homens a capacidade de sentirem emoções, observarem as forças e fraquezas da alma e as conseqüências nefastas de suas exaltações imaginativas. Enfim, temos no cinema um grande recurso terapêutico a ser utilizado.

          No filme, a sintomatologia clássica do TOC é muito bem caracterizada através do protagonista, o personagem Melvin Udall. Tomemos alguns exemplos: trancar e abrir as fechaduras determinado número de vezes, lavar as mãos excessivamente e só utilizar o sabonete uma única vez, andar pela rua sem pisar nas rachaduras da calçada e por fim a criação de um verdadeiro ritual para conseguir fazer suas refeições. Qualquer possibilidade da não realização desses atos, ou mesmo um receio antecipado disso ocorrer geram grande ansiedade, uma angústia patológica, no personagem.

          No roteiro de Mark Andrus e James L. Brooks (ao mesmo tempo diretor), a questão do TOC é bem caracterizada sintomatologicamente e tendo o ator  Jack Nicholson como protagonista, caminha na direção de transformar a história de uma grande dor humana numa comédia romântica.O filme coloca em cena questões importantes, que levantam um tema, ainda existente, com intensidade na sociedade: os preconceitos. As mulheres, os negros, os homossexuais e os doentes mentais seriam os representantes apresentados no filme. Essa temática é abordada muito superficialmente, aliás como todos as outras relacionadas as dores da alma, tais como: doença infantil, condições financeiras precárias para utilização da medicina privada, desnudamento da precariedade do sistema público de saúde (mesmo nos EUA) e da violência existente, atualmente, nas grandes cidades.

          O próprio preconceito que Melvin tem com os negros, homossexuais e mulheres, ele acaba vivenciando na própria pele ao ser expulso do restaurante sob aplausos de toda clientela. Ampliando essa visão, o filme traz a tona um dos maiores preconceitos existentes na nossa sociedade, aquele que envolve a doença mental.Em contraponto com os avanços conseguidos, em vários países (inclusive o Brasil) com a reforma psiquiátrica que simboliza o resgate da cidadania e da reinserção social, permanece no imaginário das pessoas, a idéia de que a “loucura” é perigosa e contagiante, necessitando assim de uma política de afastamento e exclusão social.

          O TOC é colocado pela OMS entre as dez condições médicas (de todas as especialidades) mais incapacitantes para o individuo atingido. Devido a esse grau de sofrimento, caso o filme abordasse ou até mesmo revelasse os pensamentos obsessivos de Melvin e as conseqüências dos mesmos sem a proteção dos seus rituais, a narrativa sofreria uma transformação, isto é, de uma comédia romântica passaria para um drama psicológico existencial. De uma comédia leve, previsível e com final feliz, passaríamos a lidar com as angústias da alma humana, com o mundo das fantasias ilógicas e com as sérias dificuldades existentes no tratamento dos portadores de TOC, indivíduos tão sofridos, em isolamento social, enfim reféns de si próprio e da sua doença.


VII- CONCLUSÔES:
                 
              Finalizando as questões que envolvem o TOC, gostaria de trazer uma contribuição da Psicopatologia e da  Antropologia através de dois autores Jaspers e Von Gebsattel. O segundo propõe que uma visão antropológica poderia permitir uma melhor compreensão do adoecer psíquico e impedir seu distanciamento das formas legítimas de expressão humana. Sabe-se que em alguns povos primitivos, o temor a uma “invocação dos mortos” levava-os a evitar toda e qualquer menção ao nome do defunto, inclusive palavras onde houvesse alguma assonância com o nome do morto. Um cadáver ou um guerreiro que houvesse matado inimigos tornava-se um objeto tabu, não podendo ser visto ou tocado até que fossem concluídos os rituais de purificação, sob pena de que terríveis castigos sobrenaturais se abateriam sobre um ocasional infrator, ou mesmo sobre a tribo inteira. “O homem primitivo”, desse modo, via-se diante de um mundo povoado de perigos e ameaças sobre naturais que lhe exigiam uma imediata e eficaz autoproteção, a qual, por sua vez, consistia na realização incessante e ordenada de rituais mágicos, minuciosos e complexos.Segundo Gebsattel, em seu livro de Antropologia Médica, o que é fascinante no encontro com o homem obsessivo é o inexplorado e,talvez, o inexplorável de sua diferente maneira de ser. A lucidez com que o obsessivo conhece seu transtorno sem, no entanto, chegar a dominá-lo, torna mais patente o paradoxo de sua existência e aumenta a inquietude do interesse psiquiátrico.

           O doente obsessivo, segundo Jaspers, é perseguido por idéias que lhe parecem não só estranhas, mas insensatas, e das quais, no entanto, não pode livrar-se, como se correspondessem à verdade. Por exemplo, tem que fazer alguma coisa, sob pena de uma pessoa morrer, ou acontecer alguma desgraça, ou simplesmente ser acometido de ansiedade extrema. Estabelece uma forma especial de relação mágica com o mundo, como se o que ele faz ou pensa pudesse impedir ou provocar algum acontecimento. Elabora, então, seus pensamentos de modo a formar um sistema de significados, e seus atos, um sistema de cerimônias e ritos, apesar de que qualquer ação que pratique lhe deixa dúvida, obrigando-o a recomeçar do princípio.
  
           Em geral, considera-se que a evolução do TOC é contínua, com períodos de melhora e outros de agravamento.Foram também constatados casos com uma evolução fásica, sendo necessário nestas situações realizar o diagnóstico diferencial com as depressões graves e associadas com idéias obsessivas.  As estatísticas  demonstram um baixo índice de recuperação, cerca de 30%, tornando o tratamento do TOC um desafio aos profissionais de saúde mental, exigindo do mesmo uma visão holística do transtorno e ao mesmo tempo ser criativo nas estratégias específicas para cada caso. A melhor indicação terapêutica é a associação psicofarmacologia e psicoterapia, além de outros recursos disponíveis dentro das equipes de saúde mental.
  
              Finalizando, gostaria de deixar uma frase do personagem Melvin Udall, portador do TOC, que apesar do seu isolamento afetivo e social, conseguia colocar sua Anima no seu trabalho como escritor, famoso por se dedicar ao universo feminino;
perguntam a ele como consegue descrever tão bem as mulheres. A resposta é:
“ penso em um homem, e elimino qualquer traço de racionalidade e lógica dele”.
  

VIII- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 American Psychiatric Association;  Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais- DSM IV, pags.398-403, Editora Artes Médicas; Porto Alegre,1995.
 Byington, Carlos Amadeu; A Perspectiva Simbólica do Espectro Obsessivo Compulsivo, Junguiana- SBPA, n*13- págs.90-119: São Paulo,1995.
 Camus, Albert; O Mito de Sísifo-ensaio sobre o absurdo, Edição Livros do Brasil Lisboa; Portugal, 1957.
 Hillman, James; Psicologia Arquetípica, Editora Cultrix- 9ª ed.; São Paulo,1997.
 Hillman James; Encarando os Deuses,Editora Cultrix-Pensamento; São Paulo,1999.
Jung, Carl Gustav; Fundamentos de Psicologia Analítica, Obras Completas de Jung, Volume XVIII, Editora Vozes; Petrópolis,2004.
 Meunier, Mário; Nova Mitologia Clássica-A Legenda Dourada, Editora Ibrasa; São Paulo,1976
 Organização Mundial de Saúde; Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10, pags.140-143, Editora Artes Médicas; Porto Alegre,1993.
 Pellegrino, Hélio; Artigo Escuridão e Rutilância, Jornal Folha de São Paulo; São Paulo, 08/10/1986.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Memória humana


 
Estudo demonstra: ela vem melhorando a cada geração

Um estudo sueco desenvolvido ao longo de vinte anos demonstrou que a memória humana vem melhorando a cada geração, devido a fatores como níveis mais elevados de instrução e boa nutrição. Lars-Göran Nilsson, professor de Psicologia da Universidade de Estocolmo, lidera o projeto.

A pesquisa envolveu 4,2 mil pessoas, entre 25 e 80 anos de idade, durante um período de vinte anos, com intervalos de cinco anos entre os testes. O estudo faz parte do chamado projeto Betula, que tem como objetivo examinar o desenvolvimento da memória a fim de identificar sinais preliminares de demência.

"Descobrimos que a memória das experiências, também conhecida como memória episódica, melhora a cada geração", disse Lars-Göran Nilsson. Essa memória se refere a lembranças de acontecimentos específicos - como, por exemplo, lembrar-se de uma viagem feita com a avó trinta anos atrás.

Os cientistas concluíram que os fatores determinantes para o desenvolvimento da memória são os níveis de educação, a nutrição e o tamanho da família. As pessoas com maior grau de instrução, melhor nutrição, bons hábitos de exercícios e menor quantidade de irmãos ou irmãs possuem memória episódica mais acentuada.

A ordem de nascimento na família também é um fator determinante, dizem os cientistas."A explicação é provavelmente o fato de que o primeiro filho recebe 100% da atenção, e quando a criança ganha irmãos a energia e o tempo dos pais passam a ser divididos entre todos", esclarece o líder do projeto.

O objetivo dos pesquisadores suecos agora é conduzir estudos comparativos em países em desenvolvimento. "É importante pesquisar se estes três fatores determinantes (grau de instrução, nutrição e menor quantidade de irmãos) também são decisivos em um país em desenvolvimento, onde o acesso a escolas e a alimentos não é tão evidente", disse Lars-Göran Nilsson.

Fonte: BBC Brasil

Psicologia na Internet


Psicologia utiliza Internet como ferramenta terapêutica
Ajuda ao alcance de um clique. Uma alternativa que resgatou a arquiteta Carolina (nome fictício), 39, de um momento de angústia e medo enquanto fazia o mestrado na França. Adepta da terapia convencional, a mineira encontrou em um site de psicologia o auxílio para encarar um momento de solidão e dificuldades longe da família.


"Resolvi fazer um teste e experimentar. Descobri por acaso na Internet. Poder desabafar, na minha língua, com um profissional do meu país foi muito bom. Foi uma experiência ótima naquele momento", contou a arquiteta, ainda fã da prática online.


A nova tendência da psicologia online ainda está engatinhando no país. A prática é reconhecida e aprovada pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) há pouco mais de quatro anos e exige selo de aprovação do órgão.


"É uma ferramenta que traz comodidade. Não temos a pretensão e não é a idéia substituir a terapia presencial, que é fundamental em muitos casos. Algumas pessoas, por exemplo, são encaminhadas para tratamento convencional", explicou Laura Ciruffo, psicoterapeuta idealizadora do site “Pseu”, que oferece atendimento psicológico.


O alerta dos profissionais é para que os interessados no serviço sejam criteriosos na hora da escolha. A psicóloga Ana Maria Lé Sénéchal, que atende pelo site, explica que a seriedade é fundamental para o sucesso da prática. "Tem que ter o selo do CFP aprovando o site. A desconfiança já é grande em relação à Internet. Por isso, é necessário esse controle."


Fonte: O Tempo

O remédio é escrever


Efeitos terapêuticos de manter blogs atraem a atenção de pesquisadores


A busca por uma vida mais saudável pode ser um dos motivos do enorme aumento do número de blogs. Estima-se que sejam cerca de 3 milhões por todo o planeta. Há anos cientistas e escritores conhecem os benefícios terapêuticos de escrever sobre experiências pessoais, pensamentos e sentimentos. Mas, além de servir como um mecanismo para aliviar o stress, expressar-se por meio da escrita traz muitos benefícios fisiológicos.


Pesquisas mostram que, com a prática da escrita, é possível aprimorar a memória e o sono, estimular a atividade dos leucócitos e reduzir a carga viral de pacientes com aids e até mesmo acelerar a cicatrização após uma cirurgia. Um estudo publicado na revista científica Oncologist mostra que pessoas com câncer que escreviam sobre seus sentimentos, logo depois, sentiam-se muito melhor tanto mental quanto fisicamente, em comparação a pacientes que não se deram a esse trabalho.


Pesquisadores empenham-se agora em explorar as bases neurológicas em jogo, especialmente levando em conta a explosão dos blogs. “Sabemos que há impulsos envolvidos em sua criação, pois muitas pessoas agem de forma compulsiva em relação a eles. Além disso, o hábito de mantê-los atualizados pode desencadear a liberação de dopamina, os estímulos são similares aos que temos quando escutamos música, corremos ou apreciamos uma obra de arte”, diz a neurocientista Alice Flaherty, da Universidade Harvard e do Hospital Geral de Massachusetts.


Fonte: Mente e Cérebro

terça-feira, 17 de julho de 2012

Em busca das origens desenvolvimentais dos transtornos mentais



Searching for the developmental origins of mental disorders
Guilherme V. Polanczyk*
* Psiquiatra da Infância e Adolescência, Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Porto Alegre, RS. Mestre e Doutor em Psiquiatria, Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, RS. Pós-doutorando, Social, Genetic and Developmental Psychiatry Centre, Institute of Psychiatry, King’s College, Londres,
Reino Unido, e Department of Psychology and Neuroscience, Duke University, Durham, EUA.
Resumo
Introdução: A psicopatologia desenvolvimental é uma disciplina que integra perspectivas epidemiológicas, sociais, genéticas, desenvolvimentais
e de psicopatologia para entender as origens e o curso dos transtornos mentais. Neste artigo, são discutidos abordagens e conceitos utilizados para
compreender as origens desenvolvimentais dos transtornos mentais.
Resultados: A psicopatologia desenvolvimental entende que os transtornos mentais são possíveis desfechos do processo de desenvolvimento e são
dependentes de infl uências sociais, genéticas e ambientais. Esses diversos fatores estão inter-relacionados de diferentes formas e em diferentes níveis,
exercendo um efeito dimensional. São discutidos: a) abordagens para determinar causalidade entre eventos ambientais e transtornos mentais; b) a
importância de entendimento dos mecanismos biológicos através dos quais fatores ambientais e genéticos atuam; c) fatores genéticos predizendo a
exposição a estressores ambientais; e d) fatores genéticos moderando o efeito de estressores ambientais.
Conclusões: As origens dos transtornos mentais podem ser iluminadas por dados de estudos que utilizam enfoques e conceitos complementares e
que integrem infl uências sociais, genéticas, ambientais e desenvolvimentais.
Descritores: Psicopatologia desenvolvimental, transtornos mentais, origens, interação gene-ambiente, correlação gene-ambiente.
Abstract
Introduction: Developmental psychopathology is a discipline that integrates epidemiological, social, genetic, developmental, and psychopathological
perspectives to understand the origins and courses of mental disorders. In the present paper, theoretical concepts and approaches applied with the
purpose of understanding the developmental origins of mental disorders are discussed.
Results: According to developmental psychopathology, mental disorders are possible outcomes of the developmental process that depend upon social,
genetic, and environmental infl uences. These factors are linked in different ways and levels, exerting a dimensional effect. The following factors
are addressed: a) approaches to determine a causal effect between environmental factors and mental disorders; b) the importance of understanding
biological mechanisms by which environmental and genetic factors exert their effect; c) genetic factors predicting the exposure to environmental
stressors; d) genetic factors moderating the effect of environmental stressors.
Conclusions: The origins of mental disorders can be clarifi ed by data from studies that use complementary approaches and concepts, integrating
social, genetic, environmental and developmental infl uences.
Keywords: Developmental psychopathology, mental disorders, origins, gene-environment interaction, gene-environment correlation.
Artigo especial
2 – Rev Psiquiatr RS. 2009;31(1)
Correspondência:
Guilherme V. Polanczyk, Department of Psychology and Neuroscience, Duke University, 2020 West Main Street, Suite 201, Box 104410 Durham, NC 27708, USA.
Tel.: + 1 919.613.6332, Fax: + 1 919.684.5912. Email: gvp.ez@terra.com.br; guilherme.polanczyk@duke.edu.
Financiamento: Este trabalho é parcialmente fi nanciado pela National Alliance for Research on Schizophrenia and Depression (NARSAD), The World’s Leading
Charity Dedicated to Mental Health Research, através do mecanismo 2008 Young Investigator Award.
Confl itos de interesse: Guilherme V. Polanczyk recebeu honorários de palestrante da Novartis, Brasil.
Copyright © Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul – APRS Recebido em 31/03/2009. Aceito em 16/04/2009.
Rev Psiquiatr RS. 2009;31(1):6-12
Introdução
A psicopatologia desenvolvimental é um campo do
conhe cimento dinâmico e em evolução, que tomou forma
a partir do livro de Thomas Achenbach, Developmental
Psychopathology1, publicado em 1974, e se desenvolveu
principalmente a partir dos trabalhos de Sroufe2, Cicchetti3
e Rutter4, entre ou tros. A psicopatogia desenvolvimental integra
perspecti vas sociais, genéticas e desenvolvimentais e tes ta
suas hipó te ses através de métodos epidemiológicos e estatísticos
específi cos, bus cando entender as origens e o curso
dos transtornos mentais4.
Inicialmente, a ênfase no processo de desenvolvimento
era utilizada especialmente para enteder os transtornos
mentais da infância5. Com a progressão do campo, estudos
passaram a mostrar que existe uma importante continuidade
dos transtornos entre a infância, adolescência e idade adulta,
e que grande proporção dos adultos com transtornos mentais
os apresentava já na adolescência6. Assim, psiquiatras de
adultos também passaram a adotar uma abordagem desenvolvimental
para entender as origens dos transtornos atuais
de seus pacientes7,8. De fato, resultados de pesquisas com
abordagem desenvolvimental, que integram epidemiologia,
genética, neuropsicologia e estudos de neuroimagem, têm
mostrado grande potencial para o entendimento das origens
dos transtornos mentais9.
Pode-se entender a psicopatologia desenvolvimental
como um modelo conceitual, a partir do qual estratégias de
pesquisa são desenhadas, observações são interpretadas e
teorias subsequentes são geradas. Nesse sentido, a psico patologia
desenvolvimental é uma das possíveis lentes através
da qual a psicopatologia pode ser vista. Neste artigo, são
discutidos conceitos e abordagens utilizados por esse modelo
para compreender como e por que determinados in di víduos
desenvolvem transtornos mentais. Inúmeros artigos de revisão
sobre diferentes aspectos dessa disciplina2-4,10-13 foram
publicados, assim como um livro texto com mais de 3.000
páginas14. Portanto, o objetivo deste artigo é esti mu lar que o
leitor considere esta abordagem na sua busca indi vidual por
ferramentas para entender o processo de desen volvimento
dos transtornos mentais.
Quais são os conceitos e abordagens
desenvolvimentais que nos auxiliam a
entender a origem dos transtornos mentais?
Os investigadores dessa área privilegiam diferentes abordagens
e conceitos, mas convergem no entendimento de que
os transtornos mentais são possíveis desfechos do processo
de desenvolvimento12. Convergem também no conceito de
que os transtornos mentais surgem a partir de inter-relações
dimensionais, complexas, em múltiplos níveis, entre características
específi cas do indivíduo (fatores biológicos, genéticos
e psicológicos), características ambientais (cuidado parental,
relacionamentos interpessoais, exposição a eventos estressores)
e sociais (rede de apoio social, vizinhança, nível socioeconômico)
4,14. Quatro conceitos que norteiam abordagens desenvolvimentais
merecem destaque.
Primeiro, a psicopatologia desenvolvimental assume
que há continuidade no processo de desenvolvimento dos
transtornos mentais, ou seja, o efeito de experiências prévias
é levado adiante ao longo do desenvolvimento. Assim, a identifi
cação de descontinuidades nesse processo caracteriza-se
em uma importante oportunidade para melhor entendê-lo2.
Segundo, há uma tendência inata de os indivíduos de se
adaptarem ao seu ambiente; se esse é patológico, é provável
que a adaptação também o seja11. Terceiro, idade e momento
do desenvolvimento são fatores fundamentais a partir dos
quais todos os outros fatores devem ser entendidos11. Quarto,
comportamentos mal adaptativos ou transtornos mentais
devem ser interpretados frente ao contexto onde o indivíduo
encontra-se inserido. Os últimos dois conceitos privilegiam
a ideia de que o processo de desenvolvimento de transtornos
mentais é específi co, ou seja, os mecanismos causais têm
resultados diferentes conforme a idade, o momento do indivíduo
e o contexto familiar ou social4.
Como desfechos possíveis do processo de desenvolvimento12,
os transtornos mentais não seriam necessariamente
categorias distintas, mas sim trajetórias desenvolvimentais
dimensionais10. Como uma complexa malha rodoviária, em
que diferentes rodovias podem levar ao mesmo local, diferentes
trajetórias desenvolvimentais podem levar ao mesmo
processo psicopatológico. Por outro lado, da mesma forma
que as mesmas rodovias podem, ao seu fi nal, levar a diferentes
locais, as mesmas trajetórias psicopatológicas podem
resultar em diferentes desfechos. Indivíduos que seguem
uma determinada trajetória desenvolvimental po dem passar
para outra, e quanto mais cedo o desvio é feito, maior será
a difi culdade para retornar ao caminho original3.
Buscando fatores ambientais
com efeito causal
Entende-se que fatores de risco ambientais para os
trans tornos mentais atuam através de múltiplos mecanismos
e ní veis e usualmente estão correlacionados a uma cadeia
de fatores de risco, que por sua vez podem atuar através de
diversos mecanismos. O foco não é dado apenas nos efeitos
dos fatores de risco, mas também nas suas origens, e assim
pode-se entender com mais especifi cidade o real mecanismo
através do qual atuam15.
É importante seguir uma série de estratégias para
que seja demonstrada a presença de relação de causa e efeito
entre fatores de risco ambientais e transtornos mentais.
Primeiro, é fundamental que a relação exista em função
de uma base conceitual sólida, com evidências acerca de
possíveis mecanismos através dos quais os eventos operam.
Rev Psiquiatr RS. 2009;31(1) – 7
Origens desenvolvimentais dos transtornos mentais – POLANCZYK
Por exemplo, existe uma série de evidências neurobiológicas
que apontam o mecanismo através do qual abuso e maus
tratos na infância alteram o funcionamento do eixo hipotálamo-
hipófi se-adrenal, podendo levar à depressão na idade
adulta16. Evidências acerca de um possível mecanismo nem
sempre estão disponíveis, e é frequente que a base conceitual
seja revelada em função dos achados epidemiológicos.
Entretanto, no momento atual do conhecimento, novos
fatores de risco ambientais para os transtornos mentais têm
sido infre quentemente revelados. Segundo, é fundamental
mostrar uma conexão temporal consistente entre o evento
estressor e o início do transtorno17. Estudos longitudinais
são fundamentais para esse objetivo, e o desafi o está no
es tudo de eventos que ocorrem cronicamente, que atuam
atra vés de diferentes mecanismos ou que mudam de intensidade
ao longo do tempo. Para a elucidação da relação
temporal entre ambos os fatores, é importante diferenciar
se os even tos ambientais ocorreram como resultado do
processo psicopatológico ou se esse iniciou anteriormente
e foi causa do evento ambiental, que por sua vez pode ter
exacerbado o processo psicopatológico. Como exemplo,
sintomas depressivos leves podem levar à demissão de um
emprego que, como consequência, pode exacerbar o processo
psicopatológico levando a um episódio depressivo.
Nesse caso, a demissão está correlacionada ao episódio
depressivo, mas não é sua causa. Em um estudo longitudinal,
se os sintomas depressivos leves anteriores não são
identificados, mesmo havendo uma conexão temporal entre
a demissão e o episódio depressivo, a interpretação de que
existe uma relação causal entre os últimos dois eventos
seria errônea. As interpretações de resultados ge ra dos por
estudos transversais apresentam maiores limitações. Terceiro,
é necessário rigor na aferição de fatores de risco e
desfechos através de medidas específicas e dimensionais15.
No exemplo anterior, seria necessária a utilização de medidas
sensíveis que identificassem os sintomas depressivos leves
anteriores à demissão. Quarto, é importante contextualizar
os eventos ambientais estudados. Por exemplo, demissão de
um emprego pode ter significados completamente distintos
para duas pessoas diferentes. Tal evento pode desencadear
uma cadeia de eventos estressores, como empobrecimento,
depressão, violência, atos criminosos ou pode ser o início
de um novo caminho desenvolvimental caracterizado por
busca de novos objetivos e conquistas.
As abordagens epidemiológicas utilizadas para demonstrar
que determinado evento ambiental apresenta
um efeito causal são limitadas frente à complexidade
dos processos e, principalmente, frente à diversidade de
variáveis confundidoras que não são levadas em consideração.
A randomização é a estratégia metodológica mais
apropriada para a demonstração de uma relação de causa e
efeito, pois os indivíduos são alocados a uma determinada
intervenção aleatoriamente. Entretanto, questões éticas
óbvias não permitem a manipulação de indivíduos para que
sejam expostos a eventos estressores. Assim, experimentos
naturais são oportunidades ímpares para entendermos as
origens dos transtornos mentais. Esses são estudos que
utilizam diferenças que ocorreram naturalmente na exposição
a determinado fator entre diferentes indivíduos, como
a institucionalização e privação de estímulos de crianças
na Romênia18, os atentados terroristas de 11 de setembro
nos EUA19 ou o furacão Katrina20.
Um ensaio natural em particular buscou entender a re lação
entre psicopatologia e pobreza, testando se pobreza é causa
de psicopatologia (social causation) ou se psicopatologia
leva à pobreza (social selection)21. Uma amostra representativa
de crianças de origem indígena vinha sendo avaliada
anualmente para transtornos mentais. Durante o período de
estudo, um cassino foi aberto na reserva indíge na, e cada
família que vivia na área passou a receber uma renda. Nos 4
anos seguintes à abertura do cassino, algu mas famílias nunca
saíram do nível de pobreza, mesmo com a nova renda; outras
saíram da pobreza depois da abertura do cassino; e um terceiro
grupo de famílias nunca havia sido pobre. As crianças
continuaram sendo avaliadas anualmente, e observou-se que,
ao fi nal desse período, os níveis de sintomas de conduta e
oposição entre as crianças de famílias que saíram da pobreza
foram reduzidos para os mesmos níveis daqueles que nunca
foram pobres. Entretanto, os níveis de tais sintomas entre as
crianças provenientes de famílias persistentemente pobres
permaneceram altos. Assim, evidenciou-se o efeito da pobreza
como causa de sintomas de transtorno de conduta e oposição.
Entretanto, os mecanismos através dos quais a pobreza leva
à psicopatologia não foram revelados nesse estudo. Especifi
camente, seria bastante informativo entendermos quais os
fatores intermediários que respondem ao aumento da renda
e levam à redução da psicopatologia. Nesse sentido, o estudo
de fatores de risco proximais ao desenvolvimento da psicopatologia,
como qualidade do cuidado parental, melhores
condições nutricionais ou de habitação, são mais informativos
para o entendimento dos mecanismos e, consequentemente,
para a elaboração de estratégias de prevenção do que fatores
de risco distais, como pobreza22.
Entendendo o mecanismo de ação dos
agentes causais
A psicopatologia desenvolvimental está interessada em
entender os mecanismos ou processos específi cos através dos
quais os agentes causais atuam15. Inicialmente, é fundamental
entender se um determinado fator atua por via ambiental
ou genética. Em seguida, entender como o efeito ambiental
“ultrapassa a pele” (get inside the skin), promovendo o
desenvolvimento de transtornos mentais, e como os genes
também ultrapassam a pele (get outside the skin) no sentido
oposto15, levando a comportamentos observáveis.
Um estudo recentemente publicado exemplifi ca a necessidade
de compreendermos o mecanismo através do qual
um fator supostamente ambiental atua23. Existe uma longa
8 – Rev Psiquiatr RS. 2009;31(1)
Origens desenvolvimentais dos transtornos mentais – POLANCZYK
e ainda não resolvida discussão na literatura em relação ao
mecanismo através do qual a exposição intraútero ao tabaco
levaria à psicopatologia nas crianças. Há evidências que
apontam que tal mecanismo se daria através de ação sobre
o ambiente intraútero, enquanto outros estudos indicam que
fumar durante a gestação é um marcador de psicopatologia
materna associada a fatores genéticos que, por sua vez, são
herdados pelas crianças, levando então à psicopatologia24.
Rice et al.23 utilizaram uma metodologia criativa para buscar
entender o mecanismo através do qual exposição intraútero
ao tabaco afetava crianças nascidas através de fertilização in
vitro. A contribuição da fertilização in vitro para a psicopatologia
desenvolvimental reside no fato de que as crianças
assim concebidas podem ser geneticamente relacionadas
aos pais ou não (se houve doação de espermatozoides e/ou
óvu los), sendo então possível dissociar efeitos potencialmente
genéticos de efeitos sobre o ambiente intrauterino.
Assim, foi comparado o efeito do tabagismo materno em
relação ao peso de nascimento e comportamento antissocial
entre crianças que eram e não geneticamente relacionadas
às suas mães23. O peso de nascimento foi menor no grupo
de crianças expostas ao tabaco intraútero, independentemente
de serem geneticamente relacionadas ou não às suas
mães. Já os níveis de comportamento antissocial foram
maiores naquelas crianças expostas ao tabaco intraútero
ape nas quando eram geneticamente relacionadas às suas
mães (tabagistas), indicando então que o efeito ambiental
intraútero provocado pelo tabaco não estaria associado
a comportamento antissocial nas crianças. Esse estudo
mos tra que exposição intraútero ao tabaco atua através de
diferentes mecanismos sobre diferentes desfechos e que,
no que se refere a comportamento antissocial, não atua
através do ambiente intraútero. Entretanto, não podemos
ter certeza se o tabagismo durante a gestação é marcador
de um risco puramente genético ou se está associado a
comportamentos maternos ao longo do desenvolvimento
da criança, que por sua vez podem exercer efeito causal
para o desenvolvimento de comportamento antissocial.
Entender os mecanismos através dos quais eventos ambientais
ultrapassam a pele (get inside the skin), promovendo
o desenvolvimento de transtornos mentais, é um desafi o.
Destacam-se, entre diversas abordagens possíveis para essa
questão, três abordagens com maior sucesso até o momento.
A primeira foca os efeitos neuroendócrinos dos estressores
ambientais. Destaca-se a vasta literatura mostran do os efeitos
neuroendócrinos de eventos estressores sobre o eixo hipotálamo-
hipófi se-adrenal16. A segunda foca o es tudo da ação
de fatores ambientais que atuam no período perinatal. Esses
parecem apresentar infl uências persistentes ao longo do desenvolvimento
(programação biológica), levando indivíduos
a tomar uma ou outra trajetória desenvolvimental (plasticidade
desenvolvimental)25. O quan to o ambiente ao longo do
tempo estará de acordo ou não com a programação inicial
estaria relacionado ao desenvolvimento de uma série de doenças
físicas, como obesidade e diabete, e também de alterações
hormonais relacionadas a transtornos mentais25. A terceira
abordagem foca a modifi cação da expressão gênica provocada
por estressores ambientais, através dos chamados efeitos
epigenéticos26. Fatores ambien tais não podem alterar a
sequência gênica, mas entende-se hoje que podem alterar, ao
longo do desenvolvimento, a for ma como os genes são expressos,
alterando o seu funcio na mento e contribuindo para
o desenvolvimento de transtornos mentais27.
O entendimento da ação epigenética de fatores ambientais
é embasado no fato de que aproximadamente 98% do
ge noma humano se constitui por DNA não-codifi cante, localizado
em regiões distantes de genes, ou seja, em regiões
que não são traduzidas. O DNA não-codificante é pouco
conservado entre as espécies, em comparação com o DNA
codifi cante, que é altamente conservado. Portanto, é possível
que o DNA não-codificante tenha grande influência
sobre as diferenças entre as espécies. Tal infl uência se da ria,
uma vez transcrito para RNA, através da regulação da expres
são dos produtos gênicos por meio de mecanismos
dito epigenéticos (como fatores promotores e silenciadores
da transcrição, processos alternativos de splicing, desenvelo
pamento das proteínas durante a translação, imprinting
genômico)26. Ainda, a ex pressão de genes é realizada de for -
ma seletiva em diferentes tecidos, o que é determinado por
mecanismos como metilação e acetilação de histonas26.
Um estudo recente mostrou dados importantes sobre os
efeitos epigenéticos do abuso na infância28. Há evidências
consistentes que mostram que a expressão reduzida de receptores
de glicocorticoides no hipocampo está associada a diversas
psicopatologias, como depressão, esquizofrenia e
suicídio26. Paralelamente, maior cuidado materno em roe dores
está associado a maior expressão desse receptor29. Assim,
McGowan et al.28 estudaram a expressão de recepto res de
glicocorticoides hipocampais em cérebros de vítimas de
suicídio que sofreram abuso na infância, vítimas de sui cí dio
que não sofreram abuso e controles. A expressão dos re ceptores
estava reduzida nas vítimas de suicídio que sofreram
abuso na infância em relação aos controles, e não foi detectada
diferença nos níveis de expressão entre os grupos vítimas
de suicídio sem história de abuso e controles. Apesar de limitações
inerentes ao desenho do estudo, tais dados fascinantes
corroboram evidências anteriores em modelos animais
e sugerem que alterações na expressão destes receptores está
relacionada a abuso na infância. Tais dados, apesar de limitações
na forma como interpretá-los, indicam um caminho
bastante promissor para que possamos entender os mecanismos
através dos quais eventos ambientais adversos contribuem
para o desenvolvimento de transtornos mentais.
Fatores genéticos predispondo
à exposição a estressores ambientais
Os genes envolvidos na suscetibilidade a transtornos
psiquiátricos são constituídos por variantes alélicas comuns,
Rev Psiquiatr RS. 2009;31(1) – 9
Origens desenvolvimentais dos transtornos mentais – POLANCZYK
que não alteram funções vitais30. Esses apresentam ainda
um pequeno efeito de suscetibilidade no processo causal
que, na maior parte das vezes, é dimensional e encontra-se
em interação com complexos processos. Ainda, os genes
muitas vezes apresentam um efeito indireto, determinando
sensibilidade a riscos ambientais que, por sua vez, se correlacionarão
com o processo psicopatológico11,30,31.
A correlação gene-ambiente é uma das possíveis interrelações
entre esses fatores, referindo-se à infl uência ge né tica
na variabilidade dos indivíduos à exposição a tipos particulares
de ambientes de risco. Ou seja, determinados comportamentos
que indivíduos assumem e que se constituem
em estressores ambientais são direcionados pelo genótipo
do indivíduo. Tal correlação pode assumir a forma passiva,
ativa ou evocativa. A correlação passiva é aquela que independe
da ação do indivíduo e relaciona-se basicamente aos
genes dos seus pais, que infl uenciam o ambiente em que o
indivíduo é criado e as experiências às quais é submetido,
principalmente durante os primeiros anos de vida. A forma
ativa diz respeito ao efeito dos genes no comportamento do
indivíduo, que determina a seleção ou o molde das experiências
ambientais às quais se expõe. A forma evocativa relaciona-
se ao efeito dos genes no comportamento do indivíduo
que desencadeará reações nas pessoas de sua relação, moldando
então suas experiências ambientais31.
Fatores genéticos moderando o efeito
de estressores ambientais
Há situações em que o genótipo do indivíduo altera o
efei to da exposição que um estressor ambiental provoca
em relação ao desenvolvimento de transtornos mentais, ou
seja, fatores genéticos atuam como moderados do efeito
de eventos adversos. Nessas condições, diz-se que há inte ração
gene-ambiente (GxE), contrapondo-se a noção tra dicional
de que genes e ambiente agiriam de forma aditiva, nãointerativa22.
Algumas situações se constituem em indi ca ti vos
da existência de uma verdadeira GxE. Evidências devem
apontar para riscos substanciais de desenvolvimento de
um transtorno mediados por fatores ambientais; entretanto,
deve existir marcada heterogeneidade na resposta das
pessoas a tais riscos, com respeito a diferenças na probabili
dade do desenvolvimento do transtorno em questão31. Nes se
sentido, observa-se que o mesmo estressor pode ad qui rir
pro porções devastadoras em um indivíduo, enquanto em
outro pode promover o crescimento e o fortalecimento
pessoal, dando origem ao conceito de resiliência. Evidências
mostram que características do indivíduo prévias ao
evento estressor, como temperamento e funcionamento
cog nitivo, que estão sob influência genética, estão associadas
a resiliência, além de outros fatores que operam em
di ferentes momentos do tempo em relação ao evento11. Ou tro
indicativo de possível GxE é a existência de evidências de
um risco genético substancial; essa contribuição genética
de ve, no entanto, operar através de vias indiretas, e não através
de conexão direta com uma condição particular31. Interações
gene-ambiente provavelmente ocorrem quando há
discordância substancial em pares de gêmeos monozigóticos
quanto à desordem em estudo22,31. Os primeiros estudos
que mostraram a existência de GxE focaram na origem da
depressão e do transtorno de conduta.
Em relação à depressão, é bastante claro que eventos
adversos que envolvem ameaça à vida, perdas, humilhações
e privações estão implicados no seu desenvolvimento32,33.
Há, no entanto, marcada variabilidade da resposta de diferentes
indivíduos a tais eventos. Para certos indivíduos,
even tos estressantes desencadeiam um episódio depressivo,
enquanto outros sujeitos submetidos a eventos tão ou mais
estressantes não desenvolvem um transtorno mental34,35.
Mais ainda, o peso de fatores genéticos e ambientais no
desencadeamento da depressão parece sofrer influência do
momento do desenvolvimento do indivíduo, com eventos
estressores precoces apresentando um efeito de sensibilização
ao transtorno ao longo do desenvolvimento36. Na
adolescência, os fatores genéticos assumem papel central
no desencadeamento da depressão, papel esse desempenhado
durante a infância por estressores ambientais37. Tais
achados são fortes indicativos da presença de interação
entre fatores ambientais e genéticos no processo etiológico
da depressão.
Os genes do sistema serotoninérgico são candidatos
ló gicos para o estudo dos componentes genéticos da de pressão,
considerando que medicações efi cazes para esse transtorno
agem sobre tal sistema38. O gene transportador da
se rotonina (5-HTT) tem recebido particular atenção, tendo
sido demonstrado o seu papel como gene candidato para
a depressão por estudos de associação38. Considerando os
fortes indicativos de existência de GxE na etiologia desse
transtorno, Caspi et al.39 estudaram o papel moderador de
um polimorfismo funcional na região promotora do 5-HTT
sobre eventos de vida estressantes no desenvolvimen to de
depressão. Aqueles indivíduos com alelo curto no poli morfismo
5-HTTLPR apresentaram um impacto significativamente
maior dos eventos estressores do que os indivíduos
homozigotos para o alelo longo.
Em relação ao transtorno de conduta, tal transtorno apresenta
coeficiente de herdabilidade (proporção da variança
total de uma característica explicada por fatores genéticos)
de aproximadamente 50%, havendo discordância substancial
entre gêmeos monozigóticos. Fatores de risco ambientais
apresentam importante influência no seu desenvolvimento,
havendo marcada heterogeneidade quanto à res posta
aos estres sores entre os indivíduos. Além disso, o efeito
dos estres sores parece ser mais marcado naquelas crianças
e adolescentes em risco genético.
A partir de tais evidências, Caspi et al.40 avaliaram o
efei to da interação entre um polimorfi smo funcional na região
promotora do gene para a enzima monoamino oxidase
10 – Rev Psiquiatr RS. 2009;31(1)
Origens desenvolvimentais dos transtornos mentais – POLANCZYK
A (MAO-A) e situações de maus-tratos na infância sobre o
desenvolvimento de comportamentos antissociais na vida
adulta. Dados consistentes apontam para a relação da MAOA
com agressividade, tanto em modelos animais como em
humanos. Essa enzima metaboliza neurotransmissores como
noradrenalina, serotonina e dopamina, sen do que sua atividade
reduzida disporia o organismo a uma hiperreatividade
neural a ameaças. Maus-tratos na infância é um fator de
risco conhecido e bem estudado para comportamento antissocial
na vida adulta. Entretanto, uma proporção importante
de crianças que sofreram maus-tratos na infância não
apresenta comportamento antissocial ao longo do seu desenvolvimento,
o que levanta a hipótese de que infl uências
genéticas possam apresentar efeito moderador sobre tal
estressor. Os resultados do estudo mostraram que a atividade
da MAO-A não apresentou efeito principal sobre o desenvolvimento
de comportamento antissocial40. Já maus-tratos
na infância apresentou efeito signifi cativo sobre o des fecho,
e tal efeito foi moderado pelo gene da MAO-A40. Ou seja,
indivíduos com baixa atividade enzimática que sofreram
maus-tratos na infância apresentaram maior chance de desenvolver
trans torno de conduta, de serem condenados por
crimes gra ves e de apresentarem maiores pontuações nas
escalas de comportamento violento e antissocial do que
aque les que sofreram maus-tratos mas não apresentavam
baixa atividade enzimática40.
Os achados desses estudos apontaram para um novo caminho
de investigação, e diversos estudos, abordando di fe rentes
fatores de risco, genes e desfechos, vêm sendo pu blicados desde
então41. Isso se deve principalmente ao potencial preventivo
que o desvendamento de quais fatores genéticos tornariam
as pessoas mais sensíveis ou resistentes a desenvolver um
transtorno mental, quando expostos a fatores adversos, apresenta.
Entretanto, para alcançarmos com sucesso essa meta,
é importante que sejam identifi ca das interações reais, com
um signifi cado biológico plau sível, e não apenas interações
estatísticas. Para tanto, além do estudo do transtorno mental
em questão, parece ser fundamental entender o efeito do evento
estressor de interesse em indivíduos sem psicopatologia (do
ponto de vista fenotípico e neurobiológico), assim como o
estudo de modelos animais e o entendimento da relevância
funcional dos polimorfi smos de interesse42.
Perspectivas futuras
A complexidade e a especificidade dos processos que
levam ao desenvolvimento de transtornos mentais desafiam
a nossa capacidade de entendê-los em detalhes. O desenvolvimento
de estudos longitudinais, que acompanham
indivíduos ao longo do tempo, desde os momentos iniciais
do seu desenvolvimento, é um caminho promissor43. De
fato, terá início em 2010 o National Children’s Study, um
estudo longitudinal que seguirá mais de 100.000 crianças
nos EUA, desde antes da concepção até os 20 anos de
idade44. Considerando o poder estatístico e a complexidade
das avaliações que serão realizadas neste estudo13, existe
uma grande expectativa quanto aos resultados que serão
gerados nas próximas décadas.
O desenvolvimento de novas técnicas de análise genética,
principalmente a técnica de análise em larga escala
(microarrays), poderá proporcionar uma visão global de
padrões de expressão gênica. Centenas de genes poderão
ser avaliados ao mesmo tempo e o risco genético de determinado
indivíduo poderá ser predito. Conhecendo a magnitude
do risco, será possível explorar questões desenvolvimentais27.
Não é claro, no entanto, se esse fantástico arse nal
produzirá conhecimentos suficientemente robustos que
se jam passíveis de tradução para intervenções clínicas45.
Em paralelo, o desenvolvimento de novas ferramentas es tatísticas,
como a análise de trajetórias desenvolvimentais atra vés
da utilização de modelagem de variáveis laten tes46,47 ou a
análise através de múltiplos níveis48, também possibilitará
que questões mais complexas possam ser entendidas.
Entretanto, todas essas técnicas terão sucesso apenas se a
avaliação dos fatores ambientais for realizada de forma
refinada, com rigor metodológico. Está claro que a forma
como as variáveis ambientais é conceitualizada e medida
influencia de forma significativa os resultados encontrados49.
Assim, a avaliação de estressores ambientais deve
estar amparada em sólidas bases conceituais.
Conclusões
A psicopatologia desenvolvimental, como uma lente
para olharmos e entendermos os transtornos mentais, minimiza
e privilegia determinados aspectos. Cabe a cada
investigador avaliar criticamente a utilização desse modelo
conceitual. A psicopatologia desenvolvimental refuta a
ideia de que fatores de risco atuam de forma isolada e não
se satisfaz apenas com a identificação de associações ou
correlações. Para que possamos traduzir o conhecimento
gerado em benefícios para a população, precisamos entender
os mecanismos através dos quais fatores de risco levam ao
desenvolvimento de transtornos mentais. Para tanto, estudos
com abordagens complementares, que integrem diferentes
conceitos e utilizem desenhos proporcionados por eventos
naturais, têm um grande potencial para a elucidação das
origens desenvolvimentais dos transtornos mentais.
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