Quem sou eu?
Uma pergunta simples. e uma resposta simples. você é você e eu sou eu. mas ao mesmo tempo, está pergunta esta carregada de significados ainda mais profundos se olharmos mais de perto. na infância parece muito notório. sou fulano de tal. ou ainda, sou filho de fulano e cicrana. quem é ele? ahh, ele é o filho do Sr. Cicrano. ou, ele é aquele que teve câncer. notem que não é difícil definir alguém. na realidade é até bastante simples. basta você atribuir uma característica que você julgue que seja a mais apropriada para aquela pessoa e a mágica acontece. temos uma definição novinha em folha de mais um ser humano. mas será que realmente podemos definir alguém? porque será então que a mesma pessoa é definida de inúmeras maneiras distintas por grupos de pessoas diferentes? será que está pessoa manifesta um repertório comportamental diferente em ambientes diferentes e por isso ela é definida de maneiras diversas?
A psicologia tenta responder isso a mais de um século. o que nós define? quem somos? vários teóricos já propuseram modelos para que possamos estabelecer parâmetros de definições e dizer de uma vez por todos quem sou eu. mas não existe consenso entre os teóricos.
Você nunca mais vai olhar para o título dessa novela da mesma forma.
O outro te define?
Deixar que o outro te defina pode parecer a primeiro momento algo ruim. "como assim? você acha que me conhece? você não conhece a minha história, você não conhece as minhas lutas" pode parecer injusto, mas no fim das contas é cômodo. pois se forem os meus erros basta eu negar, e se forem elogios basta eu aceitar. mas em ambos os casos deixar os outros te definirem é sedutor, é confortável, pois quando o outro te define você não precisar olhar para dentro de si, você não precisa fazer uma introspecção. e como isso dói, como isso nos deixa desconfortáveis, pois ninguém quer olhar para a górgona, por isso usamos o escudo de Perseu. caso não lembre da história eis um breve resumo. Perseu um herói da mitologia grega que, destinado a derrotar Medusa, a górgona, encontra uma missão traiçoeira. Medusa, uma criatura com cobras no lugar dos cabelos, transformava em pedra quem ousasse olhar diretamente para ela.
Empurrado para essa jornada pelo rei Polidectes, que buscava se livrar dele, Perseu recebeu a ajuda divina. Os deuses lhe deram presentes poderosos: o escudo espelhado de Atena, as sandálias aladas de Hermes, a espada de Hades e uma bolsa mágica para carregar a cabeça de Medusa. Com o escudo como espelho, para não olhar diretamente para Medusa, Perseu conseguiu decapitá-la. E assim, a cabeça da górgona, ainda com o poder de petrificar, foi usada em suas futuras aventuras.
Olhar para dentro de si é olhar para Medusa, para a sua feiura, ninguém quer fazer isso. porque eu iria querer fazer isso? porque eu iria querer olhar para dentro de minha podridão. melhor o outro olhar no meu lugar, se eu gostar do que ele vê, ok. mas se não gostar eu repudio com veemência tudo o que foi observado.
Obviamente o outro pode estar certo? e a resposta é um sonoro não. e explico o porquê. o outro por mais analítico que seja, por mais perspicaz que seja, por mais observador que seja, só pode ver uma fração de você, ele só pode ver parte de você, ele só pode ver aquilo que você mostra, ele não tem acesso aquilo que você pensa, as suas motivações, aquilo que move você. até mesmo você não tem certeza sobre seus próprios interesses, que dirá o outro? então, não. o outro não tem capacidades para dizer quem você é ou quem você não é.
Então temos um enorme problema. se o outro não sabe quem sou eu. e eu me recuso a conhecer-me. podemos então concluir que ninguém afinal de contas sabe quem sou eu. nem o outro e nem eu mesmo. e com isto temos uma grande crise de identidade. onde adultos, velhos, jovens não sabem quem são.
Não saber quem é se torna um dos grandes conflitos da humanidade. pois temos gerações e gerações inteiras vivendo ao acaso. não sabendo quem são. e quando alguém não sabe quem, não se domina, não se controla, não sabe onde vai e nem porque vai.
Não adianta saber, é preciso convencer o outro disso.
O mundo de hoje é o mundo das provas, das certezas, da ciência. nunca se teve tantas certezas quanto se tem hoje e ao mesmo tempo as pessoas vivem cada vez mais inseguras, com medo, ansiosas, infelizes.
Ouço com pavor as pessoas falando sobre tudo, tendo certezas sobre tudo, sabendo exatamente o certo e o errado. o mundo nunca foi tão dicotômico, nunca foi tão dualista. o cinza praticamente não existe mais. ou você é Marvel ou é DC. se for Marvel, não pode ser DC. e notem: DEFINIÇÕES. novamente elas aparecem. ou você é Lula ou Bolsonaro. se for um, não pode ser o outro. não existe mais espaço para o meio.
Tadinho do sorvete Napolitano. ele não é nem chocolate, nem morango, nem baunilha. ele não é.
A constante cobrança por se posicionar de um lado extremo ou outro, faz com que as pessoas tenham certezas. e quão prejudiciais são as certezas para a vida humana. a certeza é inimiga do progresso. basta ver que todos os avanços da humanidade se deram por questionamentos. e se...
No fim, as pessoas querem te rotular, dizer quem você pelo candidato que você votou, pelo filme que viu, pelo game que comprou, pela roupa que usa, e pasmem até por aqui que pensam. "como pode alguém saber o que o outro pensa". talvez seja um dos mistérios que eu jamais descobrirei. jamais vou conseguir entender certas coisas. porque o amor não é suficiente em um relacionamento? porque o mal parece sempre vencer? porque por mais boa intenção que você tenha, você falha e quem não se esforça prospera? eu tenho muitas duvidas, não tenho mais certeza de nada, ou melhor, tenho uma única certeza, que é a certeza de saber que jamais conseguirei as respostas que procuro.
By Arthur Silva de Souza
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